03 maio 2026

A espada

Pronta está a espada, quieto o corpo que sente

Enquanto deitado, enquanto sólido ardente

Na fogueira de um olhar

Ou no mar

De uma gota de sangue.

 

A espada apenas poisa no peito sofrido

Da sombra acabada de nascer

E o corpo sabe que aquele pingo gélido de sangue

Provocado pela ponta da espada

Será a porta de acesso ao sorriso.

 

O corpo já não se interessa do corpo que cessa

E se despede do sítio invisível do alento destino

Que o corpo morre aos poucos

Como o rio que sobe a montanha

No adeus de uma vírgula em delírio.

 

Francisco

03/05

02 maio 2026

Porque me despeço deste sentir

Porque me despeço deste sentir

Em nada de ser, e de sentir

O que sinto.

Porque me despeço deste sentir

E de quase nada ter, do todo quase gelo

Que a fogueira da chuva poisa em verso

Se o meu sonhar

Não sonhar

E se eu o querer,

Mas se não me querendo nem o amanhecer

Como posso eu viver

Como posso eu sentir

Tanto sofrer.


Francisco

02/05

O covarde nunca diz o que pensa

A sentença do condenado é dura de roer

Quando no santo altar

Dorme outro covarde que pensa,

Pensa alguma coisa ser

E o covarde se esconde no silêncio

E do covarde se ouve

Que nada tem para dizer.

o gato aurélio

assustado viva o gato aurélio

do telhado invisível do abismo

ele escutava a primeira canção do amanhecer

e fumava e sonhava que um dia iria ser

 

nada

o que poderia ser um dia

um gato

um gato ausente e um gato quase doente

 

mas aurélio não o queria saber

todas as noites no telhado

o gato aurélio escutava a primeira canção do amanhecer

todas as noites ele acreditava

 

ele não dormia

porque aurélio o sabia

e o sentia

que um dia ele seria gente.

 

Francisco

02/05

01 maio 2026

Vamos fingir

Vamos fingir.

Fingimos então que somos flores, que somos cores, fingimos então que ainda existe na noite um velho e triste apeadeiro, uma locomotiva a vapor, rompe corredor adentro, eu me escondo, depois vou à janela, peço socorro

Socorro, socorro,

Tenho uma primavera dentro de casa, ninguém o sabia, tão pouco eu, que nunca sabe nada, a não ser

Ler os astros pela madrugada.

Meia-lua e meia-luz, pudera, ela estava tão cansada, tão envergonhada, que sempre que eu lhe perguntava porque chorava, ela respondia-me que não chorava, que era apenas uma pequena migalha, dos rochedos seus olhos que são o mar.

Cada barco, o mais estúpido e tolo e louco, da avenida dos marujos, ela sabia que do outro lado do mar, uma gaivota

Tenho medo, Ricardo

Uma gaivota escrevia no silêncio de uma outra gaivota, a pequena gaivota-filho, tão pequenina, e tão querida

Sabes?

Não o sei, dizia-me sempre, e sempre que alguma coisa eu lhe perguntava, ela que não que não o sabia, e fartinho estava eu de o saber,

Que ela o sabia.

Vamos fingir, que o sono é uma equação diferencial, ordinária, e já agora,

Que o sol seja deus, e que deus o queira, quem o sabe.

Que um dia,

Tão pequenina, e tão querida, mas a gaivota-filho apenas queria voar, apenas

Sempre que apago a luz, sem o saber, meu amor, o nome da noite, o nome do meu corpo, ou o nome das mãos que acariciam os meus seios, fico sempre sem o saber, meu amor, porquê?

Vamos fingir.

 

Francisco

01/05

Corpo

Este corpo que me foge

Se cansa da vida patética e fria

Que cada degrau subido

É uma ribeira desenfreada

Magra

Que lia

Na primeira sílaba do pecado

A solidão

De uma mão

E o eterno corpo cansado,

 

Que este corpo deixou de me pertencer

Quase sem vida

Quase sem vontade de caminhar ou correr ou viver

Que este corpo vagabundo

É a sinfonia sem prazer

Quando a lua é a maresia

E o verbo é foder

Que este corpo é uma velharia

Sem cromados

E janelas eléctricas,

 

Que este corpo depois de cremado será cinza

O húmus que fortalecerá a razão inversa

Do sofrer

Descer

E subir

E me deitar

No chão húmido da minha aldeia

Que este corpo me chateia

Até que um dia eu consiga erguer da alvorada

A semente de um novo dia.

 

Francisco

01/05

O sono

O sono lembra histórias de brincar,

E sabe, sabe tudo sobre o esconderijo onde habita o temido destino, e o prometido,

Destinado a ser um pêndulo, talvez o de Foucault ou outro pêndulo qualquer,

Há sempre um fio, sempre invisível ao tempo, entre dois pontos de luz, o negro, e o silêncio

E tem a espada na mão como se fosse uma serpente, ou o trigo,

Que depois é o pão.

 

Mas o sono tudo sabe sobre a noite,

Só o sono consegue inverter as imagens do dia

E as transformar em outras palavras, semeadas na algibeira da tarde, uns dirão que é poesia,

Outros que nada é,

E outros,

Que a loucura é a distância entre o pénis e a lua.

 

Eu? Eu nada,

Nunca entendi o sono, nem a falange da madrugada,

Nunca fui marinheiro, e de barco andei meio mundo,

Convencido que as almas são moedas de oiro

Dentro da barcaça, dentro da íris

Que sempre acorda, depois do sono.

 

Francisco

01/05