Vamos fingir.
Fingimos então que somos
flores, que somos cores, fingimos então que ainda existe na noite um velho e
triste apeadeiro, uma locomotiva a vapor, rompe corredor adentro, eu me
escondo, depois vou à janela, peço socorro
Socorro, socorro,
Tenho uma primavera
dentro de casa, ninguém o sabia, tão pouco eu, que nunca sabe nada, a não ser
Ler os astros pela
madrugada.
Meia-lua e meia-luz,
pudera, ela estava tão cansada, tão envergonhada, que sempre que eu lhe
perguntava porque chorava, ela respondia-me que não chorava, que era apenas uma
pequena migalha, dos rochedos seus olhos que são o mar.
Cada barco, o mais
estúpido e tolo e louco, da avenida dos marujos, ela sabia que do outro lado do
mar, uma gaivota
Tenho medo, Ricardo
Uma gaivota escrevia no
silêncio de uma outra gaivota, a pequena gaivota-filho, tão pequenina, e tão
querida
Sabes?
Não o sei, dizia-me
sempre, e sempre que alguma coisa eu lhe perguntava, ela que não que não o
sabia, e fartinho estava eu de o saber,
Que ela o sabia.
Vamos fingir, que o sono
é uma equação diferencial, ordinária, e já agora,
Que o sol seja deus, e
que deus o queira, quem o sabe.
Que um dia,
Tão pequenina, e tão
querida, mas a gaivota-filho apenas queria voar, apenas
Sempre que apago a luz,
sem o saber, meu amor, o nome da noite, o nome do meu corpo, ou o nome das mãos
que acariciam os meus seios, fico sempre sem o saber, meu amor, porquê?
Vamos fingir.
Francisco
01/05