10 setembro 2025
25 julho 2023
Em busca do nada procurar
Procuro sem saber o que procuro
Procuro sem saber se vou
encontrar
Aquilo procuro
Procuro durante o dia
Procuro durante a noite
Procuro na poesia
Procuro
Sem saber o que procuro
Sem saber se vou
encontrar
Procuro a vida
A morte
O que procuro eu
Daquilo que procuro
Que não sei o que procuro
E tão pouco
Se aquilo que procuro
Existe
Ou é apenas uma sombra
Ou uma imagem de mim
Recortada do dia de ontem
Procuro sem saber o que
procurar
Procuro junto ao mar
E do mar não existe nada
Nada para eu procurar
Procuro nos olhos de
alguém
Aquilo que procuro
Aquilo que não sei se
existe
Ou onde possa procurar
Procuro no silêncio
Mas no silêncio não posso
procurar
Aquilo que procuro
Aquilo que já procurei
junto ao mar
Até nos olhos de alguém
Eu fui
Procurar
Mas afinal
O que procuro eu
Sem saber o que procuro
Sem saber se deva continuar
a procurar
Ou desistir
Desistir de procurar
Aquilo que eu procurava
Aquilo que eu nunca encontrei
Nem junto ao mar
Tão pouco nos sonhos que
sonhei
25/07/2023
27 junho 2023
Tractatus Logico-Philophicus
Com quinze ou dezasseis anos
comecei a consultar o “Tractatus Logico-Philophicus” de Ludwig Wittgenstein, o
que eu procurava, ainda hoje não o sei, sei que passava noites quase abraçado a
esse tratado sobre tudo, e nada do que eu precisava tinha.
Também, como referi à
pouco, ainda hoje não sei o que procurava.
Consultava “Amor” e quase
que levava com uma resma de equações matemáticas, de tratados e almas mortas de
Gogol, e se é para ir para a fogueira, vamos então todos…
Também ainda não sei quem
são e quantos são; alguns,
Tal como parte do
manuscrito de “Almas Mortas” …
A minha mãe,
Fernando… marca uma
consulta ao nosso filho, olha que ele não anda bem…
E claro que sim,
E depois de milhares de
cartas escritas pelo Senhor Fernando António Nogueira para a sua grande amada,
A doce Ophelinha…
Não interessa…, deixei de
receber cartas.
Quanto a mim, prefiro o Senhor
Álvaro de Campos…, a tabacaria, a pequena dos chocolates, o Esteves…
Coitado do Esteves…, onde
andará ele!
Deu-me trabalho, mas
consegui convencer a minha mãe, que aquele calhamaço não era perigoso, e quase
era irmão gémeo da Bíblia que ela tinha em cima da mesa,
Olhou-me,
Franziu o sobrolho,
Apelidou-me de Francisco…
E eu,
Já estou fodido; vou
apanhar nos cornos.
A coisa passou, e eu
todas as noites à procura no “Tractatus Logico-Philophicus” de qualquer coisa…,
E sabes, meu amor,
O senhor Álvaro de Campos
tem algo de misterioso, não sei…
Tal como o que procurava
naquele livro,
Nada.
Os anos passaram, ele
acompanhou-me quase sempre, até quando fiz o serviço militar na Calçada da
Ajuda,
Que de ajuda,
Nada,
Como aquilo que eu
procurava.
Talvez procurasse um
pássaro, talvez procurasse a insónia de uma pequena estrela de silêncio…,
E ainda não encontrei
neste “Tractatus Logico-Philophicus” nada sobre Alhetas, que o calor que entra
mais o calor gerado é igual ao calor que sai mais o calor acumulado…
E eu, meu amor,
De tanto calor…
Já nem sei se hoje é segunda-feira
ou se amanhã é quinta-feira…, no entanto, recordo todas as palavras do Senhor
Álvaro de Campos, e eu, de Tabacaria em Tabacaria, que deixei de comer
chocolates para não ganhar peso, lá está ele,
O Esteves,
Coitado do Esteves,
E, no entanto, pareço o
Esteves, à procura de um cigarro e que o vento me leve,
A minha mãe…
Estás bem, meu filho?
Já conversamos, quando eu
regressar da lua...
Desenhava um abraço no
meu rosto, e ficávamos horas a conversar sobre coisas; ela, que Deus era/é um
ser maravilhoso, que ia sempre proteger-me de tudo e de todos…, coisa assim e
coisa assado, e eu, eu perdia sempre porque não conseguia explicar o que
existia antes da grande explosão na teoria do Big Bang, dava-lhe um beijo, e ia
até à galáxia mais próxima.
Às vezes penso, e se tudo
isto não existir.
E formas apenas um
pedacinho de sono, em pequenos círculos…, na ponta de um elástico…, nas mãos de
Deus?
Enquanto isso, ele…
Consulta o “Tractatus
Logico-Philophicus” …
O Senhor Mário de Sá-Carneiro
dispara o revolver na sua própria cabeça,
Aos vinte e seis anos…
Apetecia-me pedir ao
Pacheco algumas das suas Pachecadas, e ir por aí…
Ir por aí a declamar os
poemas de AL Berto.
E sabes, mãe…!
Está tudo no “Tractatus
Logico-Philophicus”, de Ludwig Wittgenstein.
27/06/2023

