28 abril 2026

Já não há primavera nas andorinhas de papel

Já não há primavera nas andorinhas de papel

Já não há poetas nos versos sem graça

Entre versos

Ao pescoço gravatas

De mirra e de incenso


Já não há paciência para este louco Deus

Já não há estrelas no céu

E os rios deixaram de para o mar correr

Para depois morrer

Na sebenta de uma pétala


Já não há palavras para escrever

Já não há portas para arrombar

Já não há livros nos meus livros

Quando os meus livros ainda sabiam cantar

E sonhar


Já não há janelas para abrir

Cigarros para fumar

Já não há lareira ou fogo a arder

Já não há música a tocar;

Assim já posso partir!


28/04

12 abril 2026

já nada quase resta do amontoado de escombros da vida

já nada quase resta do amontoado de escombros da vida, na amnésia repartida entre o frio, entre a vida e a morte, e uma estrela em delírio

que quase nada existe, em tudo aquilo que existe

e que resiste

e que persiste

na canção de uma lágrima

entre as espadas de uma mão e a mão empunhando uma espada em contramão

 

já nada quase a alegria de sentir e de ver, cada flor a crescer

cada flor a sorrir, e a brincar

que tanto escuro está, se o dia fosse só uma linha recta

e erecta, sem fim

quando quase o fim da vida

pertence à razão de acreditar

 

já nada quase o ser e o ter, o sentir, ter de esquecer

cada estrada palmilhada, cada estrada invertida

longínqua, e sofrida

que a vida á e só uma avenida, sem a saída

que a tristeza é o inverno

e o inferno a beleza

 

12/04/2026, 13:12

nunca tive tempo, andei sempre e sempre sempre dentro do vento

nunca tive tempo, andei sempre e sempre

sempre dentro do vento

e sempre, eu, sem tempo

há tanto tempo, que apenas sinto o corredor cada vez mais ínfimo e pequenino

há quanto tempo, eu te espero, meu destino

há quanto tempo, que fiquei sem tempo, e perdido no vento

ai se o tempo, sentisse aquilo que sinto (sento)

eu tinha tempo, tanto tempo

para quê?

se o tempo é de borla e é deus que o dá, dizem-no

oh,

e para que quero eu tempo, se pouco ou nada, tenho

para fazer neste tempo

se ao menos o tempo soubesse quanto ainda resta ao tempo,

 

para deixar de ser tempo, e ser apenas vento.

 

12/04/2026, 05:52

como se ama uma pedra, quando a pedra não vê nem a sente, a mão

como se ama uma pedra, quando a pedra não vê

nem a sente, a mão

a mão que a ama

a mão que lhe tocava, e na pedra, escrevia

se ao menos os lábios da pedra, sentissem

e vissem

a noite rasurada, a noite inventada

quando a noite sofria

quando a pedra, quando a pedra sonhada

como se ama uma pedra

quando a pedra é uma corrente de vento

é um fluido cansado, quase em explosão

quando o corpo é não

e o corpo da pedra, que é amada,

uma equação

ou nada.

 

12/04/2026, 05:43

11 abril 2026

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Que a vaidade e a lágrima vertida

Parece que não o é, que às vezes de ser tão sofrida

E a ingrime escadaria de acesso ao céu estrelar

A água a ferver, a febre a subir

E do outro lado do sítio, a camuflada pistola

Afoita, de peito feito contra a floresta

Que se afasta do sino, que se deita sobre o gelo

Que aquele corpo já não lhe pertence

Qual lhe pertencer

 

Está malfeito, e que é defeituoso

Como o são todos os corpos emprestados, uns dormem em vão

Do vão de uma escada, da umbreira de uma caneta

Apontada ao peito

Quase sem tinta, a mão que lhe pega

Essa, sem jeito

Jeito algum enquanto brincam os barquinhos

No infantil parque dos barquinhos de brincar

Mesmo, mesmo junto ao mar

Mesmo juntinho à rua que chateia

 

A pobre da Alzira, que vende borboletas pela rua aflorar

Que traz na saia a doçura de um olhar, e na mão

A tesoura de cortar, não

Não vai ela cortar as asinhas das pobres e tímidas borboletas

Da tesoura, com a tesoura ela irá cortar

As amarras de sombra que a prendem ao castelo

Ela irá libertar, e vender não mais

Todas as borboletas

E todos os pássaros com ou sem ais

Com ou sem sal

 

Mesmo à medida do freguês

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Que a vaidade e a lágrima vertida

Parece que não o é, mas o é

Tão viril, e que sofrida

Aquela velha lágrima vertida

Que o fogo apagou, e que a Alzira se apaixonou

Por um ramo de flores, vejam lá, senhores

Como o amor o é, e ele sabia, sabia-o

Que em cada madrugada mergulhada no sono

 

Uma janela se abria

E do vento sentia, o sorriso da Alzira

Mas o fogo acordou, e um belo dia, um dia

Partiu a Alzira em direcção ao nada, pouca coisa que levou

Tão pouca, como o é a primavera de um olhar

Mesmo nos seus braços, dos braços do seu mar

A maré dizente, entre lábios e sentidos pêsames da minha ausência

Descer o rio, e descer a madrugada

E descer do altar, e descer da lua

E à lua voltar.

 

11/04/2026, 22:25

Que o livro seja o silêncio da última paragem do mar

Que o livro seja o silêncio da última paragem do mar

Que este mar que me leva seja o prumo e o fio

Da bruma primavera entre os dias

Nas noites perdidas


Que o livro seja puro

E erecto como o pénis

Ou como o vento convicto

E convencido


Que a derrota também é o pincelar

Da primeira pedra lançada contra o fogo

Porque o livro é a melodia

De um relógio quase gelo


No pulsar de uma biblioteca de tinta

E o pavio em delírio

Sob a luz do clitóris

Que amanhã cessam as tulipas


Que angústia sente a água da morte

Me pertencer

E de não o querer

Que o livro seja o silêncio da última paragem do mar


11/04/2026, 20:30