11 abril 2026

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Que a vaidade e a lágrima vertida

Parece que não o é, que às vezes de ser tão sofrida

E a ingrime escadaria de acesso ao céu estrelar

A água a ferver, a febre a subir

E do outro lado do sítio, a camuflada pistola

Afoita, de peito feito contra a floresta

Que se afasta do sino, que se deita sobre o gelo

Que aquele corpo já não lhe pertence

Qual lhe pertencer

 

Está malfeito, e que é defeituoso

Como o são todos os corpos emprestados, uns dormem em vão

Do vão de uma escada, da umbreira de uma caneta

Apontada ao peito

Quase sem tinta, a mão que lhe pega

Essa, sem jeito

Jeito algum enquanto brincam os barquinhos

No infantil parque dos barquinhos de brincar

Mesmo, mesmo junto ao mar

Mesmo juntinho à rua que chateia

 

A pobre da Alzira, que vende borboletas pela rua aflorar

Que traz na saia a doçura de um olhar, e na mão

A tesoura de cortar, não

Não vai ela cortar as asinhas das pobres e tímidas borboletas

Da tesoura, com a tesoura ela irá cortar

As amarras de sombra que a prendem ao castelo

Ela irá libertar, e vender não mais

Todas as borboletas

E todos os pássaros com ou sem ais

Com ou sem sal

 

Mesmo à medida do freguês

Incendeia o corpo na ausência do fogo

Que a vaidade e a lágrima vertida

Parece que não o é, mas o é

Tão viril, e que sofrida

Aquela velha lágrima vertida

Que o fogo apagou, e que a Alzira se apaixonou

Por um ramo de flores, vejam lá, senhores

Como o amor o é, e ele sabia, sabia-o

Que em cada madrugada mergulhada no sono

 

Uma janela se abria

E do vento sentia, o sorriso da Alzira

Mas o fogo acordou, e um belo dia, um dia

Partiu a Alzira em direcção ao nada, pouca coisa que levou

Tão pouca, como o é a primavera de um olhar

Mesmo nos seus braços, dos braços do seu mar

A maré dizente, entre lábios e sentidos pêsames da minha ausência

Descer o rio, e descer a madrugada

E descer do altar, e descer da lua

E à lua voltar.

 

11/04/2026, 22:25