Incendeia o corpo na
ausência do fogo
Que a vaidade e a lágrima
vertida
Parece que não o é, que
às vezes de ser tão sofrida
E a ingrime escadaria de
acesso ao céu estrelar
A água a ferver, a febre
a subir
E do outro lado do sítio,
a camuflada pistola
Afoita, de peito feito
contra a floresta
Que se afasta do sino,
que se deita sobre o gelo
Que aquele corpo já não
lhe pertence
Qual lhe pertencer
Está malfeito, e que é defeituoso
Como o são todos os
corpos emprestados, uns dormem em vão
Do vão de uma escada, da
umbreira de uma caneta
Apontada ao peito
Quase sem tinta, a mão
que lhe pega
Essa, sem jeito
Jeito algum enquanto
brincam os barquinhos
No infantil parque dos
barquinhos de brincar
Mesmo, mesmo junto ao mar
Mesmo juntinho à rua que
chateia
A pobre da Alzira, que
vende borboletas pela rua aflorar
Que traz na saia a doçura
de um olhar, e na mão
A tesoura de cortar, não
Não vai ela cortar as
asinhas das pobres e tímidas borboletas
Da tesoura, com a tesoura
ela irá cortar
As amarras de sombra que a
prendem ao castelo
Ela irá libertar, e
vender não mais
Todas as borboletas
E todos os pássaros com
ou sem ais
Com ou sem sal
Mesmo à medida do freguês
Incendeia o corpo na
ausência do fogo
Que a vaidade e a lágrima
vertida
Parece que não o é, mas o
é
Tão viril, e que sofrida
Aquela velha lágrima
vertida
Que o fogo apagou, e que
a Alzira se apaixonou
Por um ramo de flores,
vejam lá, senhores
Como o amor o é, e ele
sabia, sabia-o
Que em cada madrugada
mergulhada no sono
Uma janela se abria
E do vento sentia, o
sorriso da Alzira
Mas o fogo acordou, e um
belo dia, um dia
Partiu a Alzira em
direcção ao nada, pouca coisa que levou
Tão pouca, como o é a
primavera de um olhar
Mesmo nos seus braços,
dos braços do seu mar
A maré dizente, entre
lábios e sentidos pêsames da minha ausência
Descer o rio, e descer a
madrugada
E descer do altar, e
descer da lua
E à lua voltar.
11/04/2026, 22:25