sábado, 1 de março de 2014

Páginas de tristeza

foto de: A&M ART and Photos

São páginas de tristeza,
folheio os teus dedos no meu corpo ausente da madrugada sem janela,
existo, talvez... porque sinto o perfume da tua dor,
são lágrimas de papel que me fazem feliz,
e durmo pensando que estou debaixo de uma nuvem de porcelana,
velhos cacos, alguns grãos de solidão...
são páginas tuas presas à minha mão,
um livro que morre,
o escritor entranha-se no esqueleto vadio do poeta,
e este, este acredita nas infinitas flores dos jardins do nada,
uma montanha de silêncio corre em direcção à cidade do Adeus,
a ponte que me transportava para a outra margem, a casa da insónia,

(deixou de viver, morreu, caiu... simplesmente ruiu como pedaços de saliva na boca do Amor)

Onde está neste momento a casa da insónia?
nos teus olhos... acredito,
nos teus doces lábios de cereja envergonhada?
ou... nunca existiu uma casa da insónia?

São páginas de tristeza,
corações despedaçados como pedras atiradas por uma criança para o rio da morte,
dos lençóis teus, o meu peito pintado com holofotes de néon que a cidade do Adeus engoliu,
comeu,
alimenta-se de mim como sempre se alimentaram as árvores e os pássaros e os telhados de zinco,
sinto-me um analfabeto folheando pedras de xisto,
socalcos descem o meu corpo e sei que há um cais onde fundear o meu sorriso,
deixei de sorrir?
porque o faço se a vida é um circo com palhaços, carroceis e roulotes de cartolina...
sem pernas, sem braços... como os velhos guindastes do porto de Luanda,
folheio-te sabendo que pouco mais há que folhear,
e mesmo assim, são páginas de tristeza, as tuas...


Francisco Luís Fontinha – Alijó
Sábado, 1 de Março de 2014

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