14 maio 2026
Sentado estarei sobre a folha onde escrevo
13 maio 2026
Era o fogo que estava no silêncio
Era o fogo que estava no silêncio
Porque o silêncio é o pincelar da manhã
Era a saudade de uma fotografia
Dentro do caderno negro,
E eu pertencia ao jardim do mar
E eu fui barco
E fui menino
Na alvorada do sul,
Fui feliz nos teus braços e não mais te sonharei
Porque a chuva trouxe a roupa que também era
Era o verso mais lindo
Do Tejo flor na sombra de um pedaço de alumínio,
Era o fogo
Depois era o frio
E eu tão feliz na mão de um relógio
Quase a parar no tempo,
Depois dormíamos
Eu vestido de lua
E tu
Que dançavas sob a chuva,
Depois sentia a rotação das coisas
Tinha vómitos intensos
Depois muito calor
Depois muito frio,
Era o fogo que estava no silêncio
Que eu ardia nos teus braços
Que eu não te fodia
Porque eu ardia nos teus braços,
Vinha a noite e eu chorava
E da na noite ficava
Adormecia e sonhava
Um dia ir a Fátima a pé.
Francisco
13/05
Da luz do mar
Não terminou ainda a luz do mar que eu não tenho nem viver
Se vivendo eu o quisesse
E temesse ser a corda da última forca
Ou a bala disparada
A carta recebida
Não terminou ainda a luz do mar que eu não tenho nem viver o sentir
Despido e que hoje é dia de uma fotografia
Não terminou
O fogo e o sentir do outro relógio amputado e não mais acreditar no silêncio
Que a escuridão do mar é quase a mesma coisa do que a razão
E o que sobrou?
Da luz do mar...
Francisco
13/05
19:18
naquela tarde
naquela tarde, o
resplendor da chuva
daquela e naquela tarde,
que vivíamos entre olhares
que sentíamos o silêncio
perpendicular de uma viga alveolar
que dizíamos que subíamos
e que descíamos
da lua para a terra, e da
terra para a lua
naquela tarde, a voz
disfarçada de madrugada
quando apenas ainda era
de tarde, daquela tarde
depois também
desenhávamos a espuma do desejo
coberta de magnólias e de
diamantes
como se fossem os
vampiros daquela tarde
mas aquela tarde morreu
nessa tarde, como tudo morre
e ainda bem que existe a
morte
daquela tarde ficou uma
pétala de rosa dentro de um livro
de tão seca que está, de
tão velha em o ser
que já nada resta daquela
tarde, nem a chuva daquela tarde.
Francisco
13/05
18:57
Certamente
Certamente na seguinte
manhã ele acordará
Certamente, que ele o
sente
O sono submerso na espuma
do adeus
A sonolência, a vaidade
da pobreza
Sente-o
E o sabe
Em cada pedra lançada
pelo universo,
Certamente na seguinte
manhã ele morrerá
Vestido de púrpura
madrugada, sabendo-o, ele
Que o vaiado sino da
aldeia é uma vírgula sem nome
Em fome
Na cama deitado,
Na cama envenenado com
água e açúcar, o tédio, o milagre da alma
Despida e depois vendida
e revendida ao desbarato, como se fosse um simples ramo de flores para oferecer
ao santíssimo,
Santíssimo desejo de
vergar um pedaço de aço, abraço
Abraçado ao destino de um
senhor agricultor semeando palavras na terra lavrada pela água,
Eu que o sinto, eu que o
observo, sei
Sei que um dia o pobre
será alegre, e o rico um pedaço de merda
Sentado à lareira,
Certamente na seguinte
manhã ele acordará.
Certamente na seguinte
manhã ele morrerá.
Francisco
13/05