13 maio 2026

Certamente

Certamente na seguinte manhã ele acordará

Certamente, que ele o sente

O sono submerso na espuma do adeus

A sonolência, a vaidade da pobreza

Sente-o

E o sabe

Em cada pedra lançada pelo universo,

 

Certamente na seguinte manhã ele morrerá

Vestido de púrpura madrugada, sabendo-o, ele

Que o vaiado sino da aldeia é uma vírgula sem nome

Em fome

Na cama deitado,

 

Na cama envenenado com água e açúcar, o tédio, o milagre da alma

Despida e depois vendida e revendida ao desbarato, como se fosse um simples ramo de flores para oferecer ao santíssimo,

 

Santíssimo desejo de vergar um pedaço de aço, abraço

Abraçado ao destino de um senhor agricultor semeando palavras na terra lavrada pela água,

Eu que o sinto, eu que o observo, sei

Sei que um dia o pobre será alegre, e o rico um pedaço de merda

Sentado à lareira,

 

Certamente na seguinte manhã ele acordará.

Certamente na seguinte manhã ele morrerá.

 

Francisco

13/05