em despedida se despede
da noite o padeiro
o pão está feito
o forno quase frio que o
está
lá fora há barcos que
descem a calçada
e antes da saída, o
padeiro sente que leva com ele o odor
do calor
e do cheiro da farinha, a
madrinha
no alçapão de acesso ao
telhado
do padeiro, ficou um
coitado
e algum pão avariado
e tão salgado
e também ficou molhado
ainda é noite e já dia é
na algibeira do padeiro
o pão frio já está, o
padeiro cansado se vai
e em casa entra, olha a
mulher
e se deita sobre a espada
e depois, sobre a cama
desfeita, desarrumada
e triste sempre aquela
calçada
de mão no barco e de
barco na mão
mas o padeiro nunca tinha
vestido um barco, muito menos vê-lo ou o sentir
nem pelo cheiro, apenas
conseguia distinguir
se aquele pão, lhe veio
da mão
ou de outra alheia mão
que se vai, aos poucos
e que se passeia, e
depois se penteia
como o sexo andante sobre
a geada
de um corpo quase tão
espuma
como o sémen espuma de
uma aldeia
tenho pena do padeiro, e
dos poetas tristes, que quase todos o são
uns são padeiros em mão
primeira, outros padeiros o são
em trigésima quinta mão,
desvairada
madrugada sem sabor,
límpida como o silêncio de uma puta
depois da chuva passar,
depois de o vento trazer
alegria ao rosto do
padeiro
alegria à aldeia que
ardia e que às vezes incendeia
a lareira
e a poesia
e o forno corno do
padeiro
11/04/2026, 19:03
