11 abril 2026

A charrua

Tinha com ele todos os segredos da noite, e sempre que a charrua saía de casa para lavrar cada caderno, desbravar cada pedaço de sono, ou de insónia, ela sabia que a mão que lhe pegava, era mais frágil do que o vidro que a separa do destino

Pegaste nos meus óculos

Eu não, nem sequer os vi, nem a tua cara vi ainda hoje, procura em cima da secretária, ou na gaveta onde escondes as sílabas que depois noite dentro,

Semeias na algibeira de um adeus.

Quem sabe, quem sabe se um dia, olha

Olha, talvez amanhã, quem sabe

O cacto não tenha mais espinhos, nem o (cagado) peneiras no seu andar, quem sabe, quem sabe se amanhã o cágado comece a correr milhas submarinas em menos de um minuto, ou dois

Que depois a tia Adosinda esticada na cama, quase que voa contra o tapume da vizinha, que já se foi, e que se vem

A todas as sextas-feiras de primavera.

O carro lá ia, isto se diz, nem ia nem se vinha, e quando acordava, a tosse de sempre, o catarro, e a sonolência de não querer dormir, porque

Já procuraste na estante, às vezes

Perdia tudo, isto é, quase que não perdia, mas quando descia a noite sobre o alpendre, aí sim,

Sim, minha linda flor de lótus, o problema é mesmo a noite, ele se perde, e eu fico sem tino, desatinado, encurralado dentro de um círculo de luz, em tons de azul, e

Olha, afinal tinha-os na cara e procurava por eles

Coitado, coitado do Alfredo, que além de ser o Alfredo, é um gato pindérico, mesquinho, tão felino, como feio o é

Sempre o mesmo odor, sempre a rua a mesma, sempre o encarnado a vestir-se de néon menino, eu queria lá saber das vírgulas semeadas na lápide de uma meia-dúzia de malmequeres, tão amarelinhos, que às vezes e que tantas vezes

A febre, os vómitos, o sol

Dentro de um pacote de chocolate.

 

(continua…)

11/04/2026, 02:56