11 abril 2026

A charrua (continuação)

Ai as andorinhas que do tempo não sabem o que fazer, e ele cantava esta triste melodia, que tinha trazido da noite anterior, da ponte pedonal em direcção ao universo, simples, mistificado quando uma abelha lhe segredava,

Olha que sim olha que sim

Que sim, olha que sim, a porta de entrada, quase cega, trôpega e quando se lhe pegava, ouviam-se minúsculos rangidos, quando os ossos já são papel e quando o papel, arde na escuridão da colmeia.

O mar revolto estava, tanto que estava que a Etelvina, descalça, saltou a janela e foi no abraço de um desconhecido,

Às vezes que eu penso,

E se eu, e se eu fosse no abraço de um desconhecido, como fez a Etelvina, como fez o João, trinta anos depois de ter nascido, inventava pequenas quadriculas no térreo chão do parque infantil, de nome apenas e sem uma única criança em brincadeira.

Se o João soubesse, que apenas a Etelvina o sabia, que quando regressava a casa, na mochila escondia, um pedaço de tempo, sem tempo algum e para nada.

 Como a vida era dura, para a Etelvina, como a vida foi dura, para o João,

Não me digas que só hoje descobriste que a nossa vizinha tem um gato, mais um vê lá

Já tinha poucos, ela, que

Havia vírgulas naqueles carris que em nada nos levavam, quase que sentíamos a chuva miudinha de uma chamada telefónica, que o telefone nunca ou quase que nunca acordava, daquele sono e daquela escuridão, tri trim trim

Sim, olhe que estão aqui a dizer que a menina Etelvina se afogou hoje muito manhã cedo, na praia dos triciclos,

Coitadinha, escrevia na sombra o pobre do João, depois também que mal tem ter ido nos braços do primeiro pingo de chuva da manhã, que até que eu acreditava que recebia cartas com listras negras, que eram puro engano e que para mim não o eram, nem o seriam,

 

11/04/2026, 12:18

(continua…)