11 abril 2026

em despedida

em despedida se despede da noite o padeiro

o pão está feito

o forno quase frio que o está

lá fora há barcos que descem a calçada

e antes da saída, o padeiro sente que leva com ele o odor

do calor

e do cheiro da farinha, a madrinha

no alçapão de acesso ao telhado

do padeiro, ficou um coitado

e algum pão avariado

 

e tão salgado

e também ficou molhado

ainda é noite e já dia é

na algibeira do padeiro

o pão frio já está, o padeiro cansado se vai

e em casa entra, olha a mulher

e se deita sobre a espada

e depois, sobre a cama

desfeita, desarrumada

e triste sempre aquela calçada

 

de mão no barco e de barco na mão

mas o padeiro nunca tinha vestido um barco, muito menos vê-lo ou o sentir

nem pelo cheiro, apenas conseguia distinguir

se aquele pão, lhe veio da mão

ou de outra alheia mão

que se vai, aos poucos

e que se passeia, e depois se penteia

como o sexo andante sobre a geada

de um corpo quase tão espuma

como o sémen espuma de uma aldeia

 

tenho pena do padeiro, e dos poetas tristes, que quase todos o são

uns são padeiros em mão primeira, outros padeiros o são

em trigésima quinta mão, desvairada

madrugada sem sabor, límpida como o silêncio de uma puta

depois da chuva passar, depois de o vento trazer

alegria ao rosto do padeiro

alegria à aldeia que ardia e que às vezes incendeia

a lareira

e a poesia

e o forno corno do padeiro

 

11/04/2026, 19:03

A charrua (continuação)

Ai as andorinhas que do tempo não sabem o que fazer, e ele cantava esta triste melodia, que tinha trazido da noite anterior, da ponte pedonal em direcção ao universo, simples, mistificado quando uma abelha lhe segredava,

Olha que sim olha que sim

Que sim, olha que sim, a porta de entrada, quase cega, trôpega e quando se lhe pegava, ouviam-se minúsculos rangidos, quando os ossos já são papel e quando o papel, arde na escuridão da colmeia.

O mar revolto estava, tanto que estava que a Etelvina, descalça, saltou a janela e foi no abraço de um desconhecido,

Às vezes que eu penso,

E se eu, e se eu fosse no abraço de um desconhecido, como fez a Etelvina, como fez o João, trinta anos depois de ter nascido, inventava pequenas quadriculas no térreo chão do parque infantil, de nome apenas e sem uma única criança em brincadeira.

Se o João soubesse, que apenas a Etelvina o sabia, que quando regressava a casa, na mochila escondia, um pedaço de tempo, sem tempo algum e para nada.

 Como a vida era dura, para a Etelvina, como a vida foi dura, para o João,

Não me digas que só hoje descobriste que a nossa vizinha tem um gato, mais um vê lá

Já tinha poucos, ela, que

Havia vírgulas naqueles carris que em nada nos levavam, quase que sentíamos a chuva miudinha de uma chamada telefónica, que o telefone nunca ou quase que nunca acordava, daquele sono e daquela escuridão, tri trim trim

Sim, olhe que estão aqui a dizer que a menina Etelvina se afogou hoje muito manhã cedo, na praia dos triciclos,

Coitadinha, escrevia na sombra o pobre do João, depois também que mal tem ter ido nos braços do primeiro pingo de chuva da manhã, que até que eu acreditava que recebia cartas com listras negras, que eram puro engano e que para mim não o eram, nem o seriam,

 

11/04/2026, 12:18

(continua…)

feliz que partiste, e foste a árvore

feliz que partiste, e foste a árvore

e me disseste que se eu o quisesse

podias ser um pássaro, ou um peixinho

voando, voando

tão firme e baixinho

que se eu naquele momento tivesse

as asas de voar, eu que te voava

na curva mais próxima do meu acordar

 

se sonhar eu que te sonhava, e de o fazer o deixei

porque tu me disseste que se eu o quisesse

pássaro, peixinho, ou até, quem o souber

eu sem o saber, que voava, que amei e que me ergui

daquele negro vento, da rua onde vivi

e que lá sofri

e que o poderia ser

sem o chorar e sem o sofrer e foi lá que ganhei

 

outras asas para o vencer, o tempo é a escuridão

profunda, bem lá no fundo do infinito desejar

ter, ou não a ter, sabendo que aquele negro vento, que às vezes é o sentir

sem o saber

ou sem o ter

ou a vontade de partir

e comigo levar

este verso, e o medo de sorrir

 

11/04/2206, 07:26

A charrua

Tinha com ele todos os segredos da noite, e sempre que a charrua saía de casa para lavrar cada caderno, desbravar cada pedaço de sono, ou de insónia, ela sabia que a mão que lhe pegava, era mais frágil do que o vidro que a separa do destino

Pegaste nos meus óculos

Eu não, nem sequer os vi, nem a tua cara vi ainda hoje, procura em cima da secretária, ou na gaveta onde escondes as sílabas que depois noite dentro,

Semeias na algibeira de um adeus.

Quem sabe, quem sabe se um dia, olha

Olha, talvez amanhã, quem sabe

O cacto não tenha mais espinhos, nem o (cagado) peneiras no seu andar, quem sabe, quem sabe se amanhã o cágado comece a correr milhas submarinas em menos de um minuto, ou dois

Que depois a tia Adosinda esticada na cama, quase que voa contra o tapume da vizinha, que já se foi, e que se vem

A todas as sextas-feiras de primavera.

O carro lá ia, isto se diz, nem ia nem se vinha, e quando acordava, a tosse de sempre, o catarro, e a sonolência de não querer dormir, porque

Já procuraste na estante, às vezes

Perdia tudo, isto é, quase que não perdia, mas quando descia a noite sobre o alpendre, aí sim,

Sim, minha linda flor de lótus, o problema é mesmo a noite, ele se perde, e eu fico sem tino, desatinado, encurralado dentro de um círculo de luz, em tons de azul, e

Olha, afinal tinha-os na cara e procurava por eles

Coitado, coitado do Alfredo, que além de ser o Alfredo, é um gato pindérico, mesquinho, tão felino, como feio o é

Sempre o mesmo odor, sempre a rua a mesma, sempre o encarnado a vestir-se de néon menino, eu queria lá saber das vírgulas semeadas na lápide de uma meia-dúzia de malmequeres, tão amarelinhos, que às vezes e que tantas vezes

A febre, os vómitos, o sol

Dentro de um pacote de chocolate.

 

(continua…)

11/04/2026, 02:56

10 abril 2026

Ao me perder o sentir

Ao me perder o sentir

Descer, depois subir

E descer, e descer

E depois correr, e correr

 

E ter a distância em pedaços de sorrir

E o ser, e também o fugir

E que depois é o vento, e que depois foi a tempestade

E a rua e a ruela e também, a cidade

 

Uma lua tresmalhada, louca e tão louca como o chover

Enquanto o trânsito flui, e dentro da conduta, quase a arder

Está a margem de um rio, e a mão de uma figueira

Tão ingénua e destemida que dança na brincadeira

 

E que saltita

Como também o levita

Sempre em delírio na espuma de um amanhecer

E sempre que o faz, fá-lo sem o querer

 

10/04/2026, 22:18

 

arte