01 fevereiro 2026

do outro lado do sol

do outro lado do sol, será a escuridão, ou são os teus olhos

o primeiro pingo de chuva, a primeira ribeira a brotar da montanha

será que do outro lado do sol, muito longe da tua mão

habita a outra ribeira perdida, cansada e só

e só, uma ribeira adormecida

 

do outro lado do sol, talvez

seja mar, ou outra vertigem em forma de barco

que desce as escadas de acesso à última despedida

da noite que não quer, na noite que está de partida…

e que é corpo de mulher

 

mas do outro lado do sol, não existem janelas para abrir, é tão escuro que cada nova página do meu livro, é um rio sem braços, é um rio sem cabeça,

no olhar dos teus lábios, a arriba, que se suicida na distância de um novo mar, que também é um sonho

que também foi luar de uma lua de papel

 

do outro lado do sol, meu amor

eu te procuro, nua, vestida de estrelas e deitada sobre a candeia de uma vírgula desnorteada, tão faminta, e tão procurada

pelos pássaros da madrugada,

que se eu tocar no teu corpo, a minha mão se transforma em geada

 

01/02/2026, 09:38

Fevereiro, 1 DE

além-mar, metade do meu corpo, balança

dança e encanta

metade de mim, é pó

a outra metade, da meia metade da laranja, levita

e canta e também que chora

ao dispor de uma pistola, sobre a secretária

 

a caneta

a lágrima

do aparo da caneta, o rosto da seara, indiferente ao silêncio

de uma pedra, e sábado

sobre a mesa, uma lâmpada, quase sono

quase também pedra cinzenta

 

além-mar, metade do meu corpo é um barco, é uma safira, envenenada pela escuridão

que da outra metade que de mim sobrou, do ontem até

não me admira, que a janela seja encarnada, que o vento seja azul

ou a outra metade da laranja

 

uma outra lágrima.

 

01/02/2026, 00:32

 

E O TEU CORPO ME ENCANTA, ENQUANTO LHE TOCO E O BEIJO.

28 janeiro 2026

dia-meia-luz

Amamos a vida não porque estamos acostumados à vida, mas a amar. Há sempre alguma loucura no amor, mas há sempre também alguma razão na loucura.

 

Friedrich Nietzsche

A tela

as cores deitam-se sobre a tela

rios de sono, ribeiras em desalento, o passeio junto ao rio

que se envenena com o silêncio do luar

que cada barco que em si poisa, é uma maçã encarnada

semeada na tarde, na tarde espada

que a mão toca, que a mão lança

contra o vento, que chora, e que balança

e a branca tela, minutos após, se veste de janela

e de lá,

e de lá oiço o mar

 

28/01/2026, 14:07

este mar

e o mar se senta na minha mão

e me pede perdão

perdão por me abandonar

e este salgado mar

que não cessa de chorar

é o mar

que se senta na minha mão

com medo de voar

de voar no meu coração

 

e este mar aqui sentado

na minha mão quase noite de tempestade

a minha mão está tão fria

que deixei de sentir

a caneta entre os dedos doridos

e o mar

se senta na minha mão

e me pede perdão

por todos os meus dias sofridos

 

28/01/2026, 05:03

o cortinado abstracto

o cortinado abstracto é quase o anoitecer, porque a chuva não cessa, porque o vento balança, porque o vento

beija

cada sombra da floresta, e cada noite no seu sofrer

 

a janela é de porcelana, virgem lã da montanha

e cada árvore que tomba, e cada sombra que se afasta

dos tristes lírios de brincar, são flores em papel

plantadas no caderno negro, onde escrevo e desenho a primavera

 

também desenho pássaros, barquinhos de voar, e estrelas

e sinto o anoitecer, e sinto o cortinado abstracto, quase a arder

quase o silêncio do olhar, no espelho que enaltece

o sítio secreto do meu esconder

 

e que não cessa de chover, e que da luz vem o limbo

destino de uma fogueira sem nome, sem oráculo no olhar

sem lenha a arder, sentindo o destino louco

deste meu cortinado abstracto, que é quase o anoitecer.

 

28/01/2026, 04:48

27 janeiro 2026

abraça-me, neste gélido nocturno adormecer

abraça-me, neste gélido nocturno adormecer

que o cansaço é tanto, de tanto cansaço ter

que às vezes, que às vezes penso, pensar

que o teu abraço gélido, é também um braço do mar

 

abraça-me, enquanto me escondo nesta cama, porque o frio

é o silêncio de uma vírgula, é o rio

que galga os socalcos do medo, neste gélido e também cansado

nocturno, nocturno ensonado

 

abraça-me, abraça-me mesmo que a tua mão esteja fria

mesmo que a tua mão esteja enrugada, porque a tua mão um dia

não será mais gélida, nem fria

porque a tua mão um dia, será só poesia.

 

27/01/2026, 22:04