13 junho 2026

Aos teus olhos

Aos teus olhos eu lhes pergunto quantas são as estrelas do teu silêncio

Aos teus olhos eu lhes escrevo versos

Que as sílabas do amanhecer semeiam neles

Porque os teus olhos são o mar

 

E também são a primavera de um triste olhar

Aos teus olhos eu lhes pergunto o nome

Mas dizem-me eles que nunca tiveram um nome

Eu os apelidava de olhos de fome

 

Na fome dos meus versos

Nos teus olhos as flores sonham com o jardim do desejo

Se um dia os teus olhos quiserem eu lhes dou o beijo

E do beijo nascerá um novo luar

 

13/06
13:58

O pastor

Às vezes parece que nada dá certo, no entanto

Ninguém sabe ao certo, o que é o certo

E o que é o errado

Às vezes multiplicado por muitas vezes, obtemos pequenas vezes, dissipando tormentos

Trazendo na mão, ruídos e ventos

E mesmo assim, está certo, está errado

A vaquinha come a erva, no entanto

Ninguém sabe ao certo, nem o nome da vaquinha

E tão pouco o silêncio do pastor

E mesmo assim, o certo

E o errado, são apenas sombreados da noite

 

O pastor sentado

Ao som do saboreado manjar da vaquinha, a fresca erva da manhã

Ele lê poesia, e pincela o horizonte com coloridas nuvens…

E é certo que amanhã é domingo, e que é errado

O pastor ler poesia, porque dizem, lá está

Não sabendo eu se é certo ou se é errado, dizem

Que ler poesia tira o tesão, e mesmo assim, é certinho

Que amanhã o pastor, descobre que a vaquinha já comeu toda a ervinha, coitado do poeta

Que escreve para pastores, que lêem poesia

Enquanto a vaquinha,

Come toda a erva

Que está, errado

 

13/06
02:07

(algures em Carvalhais, eu, a vaquinha do tio Serafim que dava pelo nome de “amarela” e o infinito silêncio do milho dançando na espuma da noite)

12 junho 2026

A noite meu amor

A noite meu amor, o que me pode ela trazer 

A não ser insónia, sonhar-te dentro deste silêncio quase morte 

Quase destino 

Não o ser, sendo 


A noite meu amor, é apenas a sombra do mar 

Na alvorada manhã em fogo 

Que arde na boca do inferno 

Na esquina do amar-te


Amar-te na flor do dia, entre as palavras 

E as estrelas que o livro semeia na minha mão 

Ao longe oiço o pôr-do-sol sorrir 

E o pincelar da chuva é quase gelo dentro de mim 


12/06

22:58

11 junho 2026

Aqui vamos nós em direcção ao pôr-do-sol, sitiados, estamos nós os alardos

Aqui vamos nós em direcção ao pôr-do-sol, sitiados, estamos nós os alardos

Que antes de serem soldados, foram drogados

E foram fodidos pela escuridão da noite

Vestiam-se de gaiatos porque gaiatos o eram, tal como a calçada

Descalça, cansada

Às vezes ouvia-se o tiro de uma espingarda, talvez um soldado acabadinho de dar um tiro na cornadura, e zás

 

O açúcar brincava sobre a toalha, os miolos liam qualquer coisa de pouca coisa que existia naquela tarde de frio, o calor

O suor, o frio, o corpo rangia

O poema crescia, o tesão era cada vez mais, até que

Zás

 

E,

E o que dizer da madame da lavandaria que às vezes o sangrento fodia, e ela gemia, e ela

 

E zás

Capaz de engolir todo o açúcar da mesa agora desesperada, a navalha

A navalha em brincadeira com uma pequena côdea de pão, e ão

Descia o tesão ao rés-do-chão, e fazia-se dia

 

Dia

 

O cacilheiro, vaiado, também como a madame, gemia, ai que ele gemia

E se energia sobre as amoradas da sorte, o guarda-chuva azul, contorcia-se

Sentia também o frio da tarde, quase verão que o era, e no entanto

Nasci em Janeiro, em pleno verão

Coisa louca, coisa louca,

Nascer em Janeiro a um domingo e com a temperatura a mais de trinta graus celsius, porque se fosse fahrenheit,

Bom,

Esquecemos

 

Esquecemos tudo.

Sinceramente, que se foda isto tudo. É o que é.

Uma jangada de pedra, razão tinha-a ele.

Ele.

 

11/06
21:48

Às voltas com a roda anda

Às voltas com a roda anda

A roda, que às vezes é dentada

Que outras tantas vezes, não é nada

Que cada parafuso apertado

É alegria no convento

Que cada flor envenenada

É a metáfora da primeira lágrima

Às voltas no rosto da gruta

À roda com a roda

Há chuva na eira

Às voltas com a roda

A roda que nem sempre roda

Que cada lágrima chorada

É uma luz apagada

É

São

Meia-dúzia de laranjas

Meia-grande com cerejas

Gosto de laranjas

E odeio cerejas

E rodas dentadas

À roda com a roda

A roda, que às vezes roda

Que outras tantas vezes não quer rodar

A roda

E um dia a roda vai parar

 

11/06
01:19

Três espadas cravadas no peito sentindo

Três espadas cravadas no peito sentindo

O frio ardente da dor

Três espadas sangrando, a deus pedindo

Luz e cor

 

E o peito do homem sofrendo

Em ferida nuvem no silenciar nocturno infernal

Há estrelas no céu chorando

E da terra pedras são vestidas de mal

 

Três espadas sentidas

Na pele difusa do olhar

E o corpo, coitado, com muitas feridas

E uma enorme vontade de voar

 

11/06
00:01

10 junho 2026

Está morto o verso, aliás

Está morto o verso, aliás

Quase tudo em mim, morreu

Morreu

Está morto o verso, tão morto

 

E tão o é no reverso céu

Da tempestade semeada pela mão, morto está

Este verso ainda sem nome, crucificado pelo lado esquerdo

Do quadrado, e o inverso

Que tão morto está este verso

 

Está morto o verso, e não converso

Nem com o verso

Nem com o universo

Eu morto, morto está este verso

 

10/06
21:15