14 maio 2026

Daqui a pouco é dia

Daqui a pouco é dia

Daqui a pouco é vento de nortada

É alegria

É quase uma mão na boca do corpo

Que se desenvolve e que descansa

Que orgulho em ser libertado

E

E daqui a pouco é vento

E é dia de um dia na semana de um guarda-chuva

Que tinha e que sentia

Lisboa na algibeira

Que tinha a luz do mar

Rua e sentir o ter de um dia

Depois vou tocar na alvorada

Na esquina do amar o que não é amar

É silêncio

É quase dia o evangelho diurno do dia

Que eu o seja

Que eu nunca a tenha nas páginas de um rio

Saturno menino saturados sejam os teus olhos

Pelo veneno frio e gélido de um relógio

Que tinha na cabeça um pedaço de pedra

Que sabia

Sentia o pouco que daqui é dia.


Francisco

14/05

Sentado estarei sobre a folha onde escrevo

Sentado estarei sobre a folha onde escrevo
Dormir sabendo que o livro é a melodia da morte
Dormir sabendo que a fogueira da morte é quase gelo
No silêncio gélido de uma amoreira
Sentado estarei sobre a folha onde escrevo
Sentado no silêncio dos olhos de uma fotografia
Que dança sob o cabelo comprido do mar
Que sorri capaz de ser libertado do meu sol
Sentado
Estarei sobre a folha onde escrevo
Que é sangue vento na cabeça de uma turbina
E eu pertencia à força dos electrónicos cromados
Sítios sentado estarei sobre a folha onde escrevo
Sentado
Sentado na fímbria luz do clitóris
Que acaba de descer à terra sagrada.

Francisco
14/05

13 maio 2026

Era o fogo que estava no silêncio

Era o fogo que estava no silêncio

Porque o silêncio é o pincelar da manhã

Era a saudade de uma fotografia

Dentro do caderno negro,


E eu pertencia ao jardim do mar

E eu fui barco

E fui menino

Na alvorada do sul,


Fui feliz nos teus braços e não mais te sonharei

Porque a chuva trouxe a roupa que também era

Era o verso mais lindo

Do Tejo flor na sombra de um pedaço de alumínio,


Era o fogo

Depois era o frio

E eu tão feliz na mão de um relógio

Quase a parar no tempo,


Depois dormíamos

Eu vestido de lua

E tu

Que dançavas sob a chuva,


Depois sentia a rotação das coisas

Tinha vómitos intensos

Depois muito calor

Depois muito frio,


Era o fogo que estava no silêncio

Que eu ardia nos teus braços

Que eu não te fodia

Porque eu ardia nos teus braços,


Vinha a noite e eu chorava

E da na noite ficava

Adormecia e sonhava

Um dia ir a Fátima a pé.


Francisco

13/05

Da luz do mar

Não terminou ainda a luz do mar que eu não tenho nem viver

Se vivendo eu o quisesse

E temesse ser a corda da última forca

Ou a bala disparada


A carta recebida

Não terminou ainda a luz do mar que eu não tenho nem viver o sentir

Despido e que hoje é dia de uma fotografia

Não terminou


O fogo e o sentir do outro relógio amputado e não mais acreditar no silêncio

Que a escuridão do mar é quase a mesma coisa do que a razão

E o que sobrou?

Da luz do mar...


Francisco

13/05

19:18

naquela tarde

naquela tarde, o resplendor da chuva

daquela e naquela tarde, que vivíamos entre olhares

que sentíamos o silêncio perpendicular de uma viga alveolar

que dizíamos que subíamos e que descíamos

da lua para a terra, e da terra para a lua

 

naquela tarde, a voz disfarçada de madrugada

quando apenas ainda era de tarde, daquela tarde

depois também desenhávamos a espuma do desejo

coberta de magnólias e de diamantes

como se fossem os vampiros daquela tarde

 

mas aquela tarde morreu nessa tarde, como tudo morre

e ainda bem que existe a morte

daquela tarde ficou uma pétala de rosa dentro de um livro

de tão seca que está, de tão velha em o ser

que já nada resta daquela tarde, nem a chuva daquela tarde.

 

Francisco

13/05
18:57

Certamente

Certamente na seguinte manhã ele acordará

Certamente, que ele o sente

O sono submerso na espuma do adeus

A sonolência, a vaidade da pobreza

Sente-o

E o sabe

Em cada pedra lançada pelo universo,

 

Certamente na seguinte manhã ele morrerá

Vestido de púrpura madrugada, sabendo-o, ele

Que o vaiado sino da aldeia é uma vírgula sem nome

Em fome

Na cama deitado,

 

Na cama envenenado com água e açúcar, o tédio, o milagre da alma

Despida e depois vendida e revendida ao desbarato, como se fosse um simples ramo de flores para oferecer ao santíssimo,

 

Santíssimo desejo de vergar um pedaço de aço, abraço

Abraçado ao destino de um senhor agricultor semeando palavras na terra lavrada pela água,

Eu que o sinto, eu que o observo, sei

Sei que um dia o pobre será alegre, e o rico um pedaço de merda

Sentado à lareira,

 

Certamente na seguinte manhã ele acordará.

Certamente na seguinte manhã ele morrerá.

 

Francisco

13/05

12 maio 2026

Um pássaro sem asas, voar certamente não voará,

E sonhar, será que um pássaro sem asas consegue sonhar?

Será que um pássaro sem asas é amado e sabe amar?

Será?