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08 abril 2026

Como seria a criança que brincava com círculos de luz do outro lado do rio

Do vértex destino o outro corpo parecia um farrapo de linho, ou até

A melodia manhã vestida de preto, caminhando descalça, calçada abaixo, se sentando na primeira esquina de luz que encontrava, e que o amava

Que o desejava, envenenado, amordaçado, lançado contra o último barco da noite.

Um dia, ele, e ela, e os outros, se cansaram do abismo, e acordaram da sonolência, que é pertencer à aldeia dos mabecos, e submersa num lençol de sonhos.

Chovia. Chove, sempre que me recordo de ti, sempre que te peço, qualquer coisa, começa a chover, e que de tanto eu te sinto no meu peito, que sei, que sei que em cada lágrima por mim desenhada, é um sorriso teu, quando me olhavas com os teus olhinhos de morfina e me perguntavas,

E que me dizias,

- isto tem de acabar pá, nunca sei quando é noite, nunca sei quando é dia, porra

Porra mesmo, respondia-lhe o filho em término silêncio, do silêncio que fosse eternamente, naquele momento, o silêncio divino, que era o fim, que era o começo e o recomeço quando um dia qualquer resolveu atravessar o rio congo, e zás

Congo Belga,

E das tantas vezes, nas muitas vezes que lhe perguntei, porquê

Ele, nada

Apenas porque do outro lado do rio, chovia. E que uma criança, brincava com círculos de luz.

Hoje, talvez perceba que essa criança era eu, e que que os círculos de luz, o teu olhar, mas sei lá, meu amor, o tempo é estranho, Einstein sabe-o e eu, aos poucos o vou compreendendo, porque

- esteve aqui o médico e se tudo correr bem para a semana já vou para casa,

Claro que vais, paizinho, vais e talvez não voltes mais, o filho, mentia ao pai, dizendo-lhe que tudo estava a correr pelo melhor, depois, bom, depois mentia à mãe, fazendo-a acreditar que em breve, o amor da sua vida estava ao seu lado, deitado na sua cama, e depois mentia a mim mesmo, não sabendo se tinha almoçado ontem, se tinha vontade de jantar amanhã, ou

Se seria melhor lançar os dados, e ele mentia ao filho e à mulher de uma vida,

E que seja o que deus quiser.

Uma caneta pertencente à sua infância, durante a noite se erguia, e eu sabia, que era ela, e então

Sentava-me na cama, e escutava-a, espiava-a

E eu também sabia, que a caneta escrevia, mas quando

 

(querem mais? Insiram a moedinha de 25$ na ranhura e)

 

O tipo da cabine ao lado em gritos histéricos, louco, que já tinha introduzido na ranhura 75$ e que a cabra ainda nem sequer tinha tirado o soutien, coisa macabra que eram estes bares estranhos, com cabines que mais pareciam o telefone público, tão estranhos como o tempo, e o bar 25 sempre apiado e recheado e magalas.

Quanto ao filho do senhor que atravessou o rio Congo, esse, coitado, dos primeiros 25$ apenas retractou e filmou o olhar mais triste daquela noite, e desistiu.

E pela primeira vez da minha vida de adulto, deitei-me na cama ao lado da minha mãe, peguei-lhe na mão, e adormeci ficando acordado a olhar o tecto e a imaginar…

Como seria o rosto da criança que brincava com círculos de luz do outro lado do rio, e

E que tinha fascinado o meu pai.

 

Alijó, 08/04/2026 – 11:45

04 agosto 2022

O arco-íris dos peixes

 Tão triste,

As paisagens que poisam na tua mão e desconhecem as palavras da madrugada; tão triste, quando percebo que no teu olhar habitam as primeiras chuvas invisíveis das noites escondidas pelas nuvens em poesia,

E do teu sorriso, a tristeza dos Invernos quando descia pelas sombras do amanhecer a penugem manhã, quando sabíamos que lá fora, junto ao rio, existiam as palavras desenhadas pela tua mão cansada, existiam as palavras inventadas pela tua boca sonolenta e, no entanto, as cinzas dos teus ossos vagueavam pelo corredor apilhado de livros, revistas e vinis…, tão triste, mãe,

As músicas envenenadas nas telas desmaiadas, as palavras cintilantes dos vinhedos sombreados, tão triste, mãe

As paisagens.

Que poisam na tua mão e desconhecem as palavras da madrugada, tão triste, a masturbação intelectual dos pássaros, tão triste mãe,

A morte,

Quando vínhamos das silenciadas montanhas e não sabíamos que sobre as árvores, e não sabíamos que junto à lua, tão triste, mãe,

Viviam todas as cores do arco-íris e que todos os peixes sofriam nas tuas lágrimas. O poema, aos poucos, suicidava-se nos teus cabelos, mas do outro lado da rua, pertinho da pequena árvore da solidão, brincavam os meninos de papel que ainda ontem eram apenas cadernos quadriculados,

Tão triste, mãe,

O vento quando se enforca nas árvores, tão triste,

O pai não saber voar.

E quando poisavam na tua mão, desconheciam as palavras da madrugada, tão triste, a masturbação intelectual dos pássaros, tão triste, mãe, as tristes madrugadas de insónia,

Porque eramos apenas invenção do sono.

Do rio, os barcos cinzentos das esplanadas avançavam contras os rochedos e ouvíamos as palavras das pequenas pirâmides de areia. A maré, entre saudades e sonos trocados, estacionava-se juntinho á tua lápide…

Até que o rio desparecia no horizonte. Tão triste, mãe

Quando um filho pinta as lágrimas da noite nas pequenas vidraças da saudade.

Assim sendo, que chova e te leve até ao distante luar; tão triste, as palavras inventadas pela tua boca.

 

 

 

Francisco Luís Fontinha

Alijó, 04/08/2022