24 junho 2026

a voz do lume

se ao menos existisse a voz do lume

que sempre que acordasse

pudesse escrever na geada

o nome desta espada

 

que se crava

no meu peito sem saber

ao menos o nome

sem saber o dia

 

se ao menos existisse dentro de mim o grito

ou até o abismo reflectido na sombra

depois a chuva

depois as flores

 

depois a voz

e

o

nome do lume

 

ardume da fome

se ao menos existisse na voz do lume

um sorriso

ou um nome.

 

24/06
05:07

23 junho 2026

Enfim, o fim

Enfim, o fim

O sim e o não

O sem-fim indomável

Do automóvel pungente

No fundo da rua está gente

Que sente

E que mente

 

Enfim, o fim

O sim

O não

O pão

Sem tostão

O jardim, assim

Sem povo e sem azedume

O lume

 

Enfim, o fim

Sempre finalmente, o fim

Sempre

Fim

Sim, o fim.

 

23/06
22:03

Teus olhos não mais me olharão

Teus olhos não mais me olharão

Seja dia ou anoitecer

Na ânsia da mão

Na despedia do amanhecer

 

Teus olhos não mais os quero ver

Porque os teus olhos são o veneno

Das palavras de te escrever

E do meu engano

 

De os teus olhos eu os querer

Teus olhos não mais me olharão

E tão pouco eu os quero ter

 

Teus olhos não serão mais o meu acordar

Na despedida da mão

A mão que não mais te quer tocar.

 

23/06
19:47

Cai a sombra na luz

Cai a sombra na luz

Que luze

Da urze, que era luz

É hoje uma porta encerrada

 

Truz

Truz, truz

 

Cai a sombra na luz

Cai a mosca no prato de luz

Depois é domingo

Depois

 

É a sombra que na luz cai

É a vertigem, o desânimo

Cai a sombra na luz

Sempre que é inverno.

 

23/06
08:24

À noite meu anjo

À noite meu anjo, não te desejarei mais 

Do Tejo ao cansaço, do breu 

Definido e confuso ao léu 

O abismo é quase gelo 

A sensação de estar morto, habitualmente 

Dentro do caderno negro, a luz é vento e é a melodia do olhar 

É a palavra escrita 

Sentida 

E semeada 


À noite meu anjo, não te sonharei mais 

Cada sombra aprisionada na alvorada 

E o pincelar da chuva 

Sobre a maré é 


À noite meu anjo, não te quererei mais 

São todas as coisas que eu apenas tenho 

Tinha 

As saudades 

O silêncio 

A ausência 

Não 

À noite meu anjo, não mais 

Serás poema.


23/06

08:03

(Ribadouro)

O azul morreu, o vermelho Cresceu

O azul morreu, o vermelho

Cresceu

Na branca tela de um corpo

O verde, pincela os seios

Sabendo que o amarelo gravita à volta

Da vagina prateada, quase oiro

E quase alvorada

 

O preto, na cinza vergonha de o ser

Esconde-se na linfática e ausente pedra-pomes

Querendo o mar ser azul, sabendo que o azul morreu

Que não há mais azul no céu

Nem na terra

Nem na galáxia

Ou em negro buraco que se preze, e o seja.

 

23/06
04:40

Ao som do clitóris, o corpo quase vento

Ao som do clitóris, o corpo quase vento

Entrando na escuridão do desejo

Na mão do pensamento

Esconde o beijo

 

E o ensejo de ser

O corpo quase vento

Quase não ter

Abraço ou alimento

 

Que às espadas desmensuradas, que ontem sabiam a cor

Da espuma cinzenta

Que embrulha o amor

 

Ao som do clitóris, uma rosa em seu sorrir

Tão contente que até encanta

O barquinho que vai partir.

 

23/06
04:30