oiço música, sinto que
isto vai descambar
a ver vamos,
então nos sentamos
vamos nos sentar
oiço música, mesmo
sabendo que nada estou a ouvir
porque neste momento não
estou no planeta terra
alô terra, algures por
aí, chama
e nada, nada
onde estou?
sentado, escrevendo ao
pai natal cartas, que respostas nunca as recebi
olha, ele que se foda
e da terra até onde
estou, então nos sentamos
vamos lá nos sentar
é curioso, até diria, eu
sei lá o que eu diria
no entanto hoje um casal
de lésbicas convidou-me para fazermos sexo, claro
recusei
não
não porque eu esteja
farto, que farto não estou, até talvez faminto esteja
mas porra, as gajas eram
da constelação de zás, e que zás
não estou para aí virado
e o que dira viriato? o
camelo, o indivisível fusível da encarnação
boa noite meninas, durmam
bem
que eu também, se me
deixarem
claro que não me deixam
dormir, são os pássaros, são as flores a baterem na janela e a convidarem-me
para brincarmos, são as estrelas que me fascinam, mesmo sabendo que toda aquela
merda é uma massa de gás e de poeira que
que
claro que nos sentamos,
vamos nos sentar
e
poeira que, que
ao perto é feio, é
e ao longe são tão lindas
as estrelas, que estrelas não o são
porque são apenas pontos
de luz
e ao preço a que está a
electricidade
e tudo, e até a morte
está cara, até o infinito está cada vez mais perto
chega o barco, daqui a
pouco é a partida, vou ficar mais um pouco, e depois lá arranjo uma solução
para ir para a outra margem, em marcha lenta, a agulha, a agulha sonolenta
e é triste ver a gaivota
vestida de azul, quando a gaivota é branca e sempre se vestiu de branco, o rio
o rei da selva, das
cubatas e das sanzalas, do capim e das ceroulas, em criança vencendo o frio
com o frio, porque se o
fogo se apaga com o fogo, e o frio com o frio?
vencido, o autómato quase
perfeito do poema, transformar merda
em oiro puro, o sonho
alquimista dos poetas sonhadores, das flores
de tantos engenheiros e
de tantos
doutores
no entanto e até hoje,
ninguém teve essa proeza
a não ser, não
eu não, credo, cruzes
estou a falar da minha
tiazinha adosinda que partiu ainda eu gaiato, e que eu descia as escadas com o
cu das calças de tão contente, oiço música, ainda não desci, alô terra? aló?
e eu não o digo, nem o
vou
e fodia logo os cinco
escudos no grifo em cromos, a foder
dinheiro desde que nasci,
qualquer dia deus nem os tomates me consegue levar, olha que se foda, quero eu
lá saber das cartas, enfim
a clareza, o nobre e
cinzento vento, sento, que eu me sento
vamos nos sentar, e
parece
que
ainda
não
é
neste
barco
que vou para a outra
margem
temos tempo e que é de
borla, das poucas coisas que temos sem pagar, porque o resto
três apitos em apuros, já
se ouvem os marujos de pau feito, já se ouve o ujo, ao longe de tão longe o
ser, e zás
que me esqueci, onde fica
essa merda de constelação de zás que nem a merda do google sabe onde fica,
ninguém o sabe, ao que parece
e sempre que se quer, ser
e
que
e que acontece
mas só a quem merece
e eu não o mereço, mais
um apito, talvez o último, talvez
oiço música.
18/06
23:16