18 junho 2026

Ao deus-dará

Ao deus-dará o que ele me trouxer

Que nunca nada me trouxe, a não ser

A vida

A merda da minha vida

Mas deus tem muito quer fazer

E não tem tempo para tomar conta da minha vida,

Menos tempo eu tenho, e deus dá-nos o tempo

Ao deus-dará no incerto silêncio de uma espada, sem nome

Nem ventre, apenas uma espada

A espada da solidão

E da fome

 

Ao deus-dará o que ele me trouxer, e se simpático o for

Que nada me traga, ou se ele o quiser

Que me dê apenas uma flor

 

Ao deus-dará a morte a vida e o universo

Cada vez mais infinito, nos meus finitos versos

Que ao deus-dará se masturbam no vão de uma escada, ao deus-dará

A preguiça, a almotolia de acordar na fimbria solidão de abrir os olhos, e de me olhar no espelho, ao deus-dará

A sinfonia, a escrita

As galinhas no seu cacarejar, sim

Pela manhã incendiada, que ao deus-dará

Se senta junto à sua cabeceira, no decimo quinto dia

A contar,

Do ao deus-dará

 

Ao deus-dará deixou de acreditar

Ao deus-dará não mais quis saber dos sonhos

Ou do mar,

Ao deus-dará

 

Ao deus-dará ou a teoria do caos, e

O efeito borboleta, sempre ao deus-dará

A cigana simpática, escreve na terra ao deus-dará

Todas as nódoas de uma tarde de sismo, a catástrofe de uma estrutura em colapso, ao a deus-engenheiro

Ao deus-dará

Ao deus-dará quando a chuva é o oiro da milimétrica saudade de uma tempestade, o cheiro a queimado que se ergue da terra, e sobre a copa das mangueiras, ao deus-dará

O inferno, o medo

Ao deus-dará nós e deus

E até o galo da vizinha,

Coitado,

Anda ao deus-dará

 

18/06
01:42