19 junho 2026

Era só, só uma coisinha de nada

Era só uma folha em papel

Era só

O só

E na mão o pincel

 

E no pensamento o ausente

Vento

Vento que sente

Outro vento e um novo ausente

 

Era só uma folha em papel

Foi um beijo lá desenhado

Foi flor, também ela desenhada

Foi solidão no acordar da madrugada

 

Era só uma jangada

E uma pedra, e outra pedra, lançada

Era só um beijo

E hoje não é nada

 

Era só um rio desgovernado

Era só um comboio sem apeadeiro, sem freio

Era só, só o coitado do padeiro

Sem pão e sem dinheiro

 

Era só um abraço na distância de um olhar

Era só uma carta escrita, sempre sem resposta

Sempre

Com sabor a mar

 

Era só uma terra com tanta terra para descobrir

Era só um sonho, e hoje, e hoje é o sonho de partir

Era só uma folha em papel

Era só

 

O só

De António Nobre, era só uma folha em papel

E hoje é montanha, é arte em pastel

O só, do só encoberto pela noite

 

Era só uma vírgula, e uma pequena algazarra

Era só uma lanterna, uma bóia

E uma janela

Encerrada

 

Era só, só uma coisinha de nada.

 

19/06
01:25