Era só uma folha em papel
Era só
O só
E na mão o pincel
E no pensamento o ausente
Vento
Vento que sente
Outro vento e um novo
ausente
Era só uma folha em papel
Foi um beijo lá desenhado
Foi flor, também ela
desenhada
Foi solidão no acordar da
madrugada
Era só uma jangada
E uma pedra, e outra pedra,
lançada
Era só um beijo
E hoje não é nada
Era só um rio
desgovernado
Era só um comboio sem
apeadeiro, sem freio
Era só, só o coitado do
padeiro
Sem pão e sem dinheiro
Era só um abraço na distância
de um olhar
Era só uma carta escrita,
sempre sem resposta
Sempre
Com sabor a mar
Era só uma terra com
tanta terra para descobrir
Era só um sonho, e hoje,
e hoje é o sonho de partir
Era só uma folha em papel
Era só
O só
De António Nobre, era só
uma folha em papel
E hoje é montanha, é arte
em pastel
O só, do só encoberto
pela noite
Era só uma vírgula, e uma
pequena algazarra
Era só uma lanterna, uma bóia
E uma janela
Encerrada
Era só, só uma coisinha
de nada.
19/06
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