18 junho 2026

oiço música,

oiço música, sinto que isto vai descambar

a ver vamos,

então nos sentamos

vamos nos sentar

oiço música, mesmo sabendo que nada estou a ouvir

porque neste momento não estou no planeta terra

alô terra, algures por aí, chama

e nada, nada

onde estou?

sentado, escrevendo ao pai natal cartas, que respostas nunca as recebi

olha, ele que se foda

 

e da terra até onde estou, então nos sentamos

vamos lá nos sentar

é curioso, até diria, eu sei lá o que eu diria

no entanto hoje um casal de lésbicas convidou-me para fazermos sexo, claro

recusei

não

não porque eu esteja farto, que farto não estou, até talvez faminto esteja

mas porra, as gajas eram da constelação de zás, e que zás

não estou para aí virado

e o que dira viriato? o camelo, o indivisível fusível da encarnação

boa noite meninas, durmam bem

que eu também, se me deixarem

 

claro que não me deixam dormir, são os pássaros, são as flores a baterem na janela e a convidarem-me para brincarmos, são as estrelas que me fascinam, mesmo sabendo que toda aquela merda é uma massa de gás e de poeira que

que

claro que nos sentamos, vamos nos sentar

e

poeira que, que

ao perto é feio, é

e ao longe são tão lindas as estrelas, que estrelas não o são

porque são apenas pontos de luz

e ao preço a que está a electricidade

e tudo, e até a morte está cara, até o infinito está cada vez mais perto

 

chega o barco, daqui a pouco é a partida, vou ficar mais um pouco, e depois lá arranjo uma solução para ir para a outra margem, em marcha lenta, a agulha, a agulha sonolenta

e é triste ver a gaivota vestida de azul, quando a gaivota é branca e sempre se vestiu de branco, o rio

 

o rei da selva, das cubatas e das sanzalas, do capim e das ceroulas, em criança vencendo o frio

com o frio, porque se o fogo se apaga com o fogo, e o frio com o frio?

vencido, o autómato quase perfeito do poema, transformar merda

em oiro puro, o sonho alquimista dos poetas sonhadores, das flores

de tantos engenheiros e de tantos

doutores

no entanto e até hoje, ninguém teve essa proeza

a não ser, não

eu não, credo, cruzes

estou a falar da minha tiazinha adosinda que partiu ainda eu gaiato, e que eu descia as escadas com o cu das calças de tão contente, oiço música, ainda não desci, alô terra? aló?

e eu não o digo, nem o vou

e fodia logo os cinco escudos no grifo em cromos, a foder

dinheiro desde que nasci, qualquer dia deus nem os tomates me consegue levar, olha que se foda, quero eu lá saber das cartas, enfim

 

a clareza, o nobre e cinzento vento, sento, que eu me sento

vamos nos sentar, e parece

que

ainda

não

é

neste

barco

que vou para a outra margem

 

temos tempo e que é de borla, das poucas coisas que temos sem pagar, porque o resto

 

três apitos em apuros, já se ouvem os marujos de pau feito, já se ouve o ujo, ao longe de tão longe o ser, e zás

que me esqueci, onde fica essa merda de constelação de zás que nem a merda do google sabe onde fica, ninguém o sabe, ao que parece

e sempre que se quer, ser

e

que

e que acontece

mas só a quem merece

e eu não o mereço, mais um apito, talvez o último, talvez

 

oiço música.

 

18/06
23:16