05 maio 2026

A tarde é quase gelo na minha mão

A tarde é quase gelo na minha mão

O sorriso da tempestade, ausência da tua voz

Simplesmente a luz do mar

Se esconde no teu corpo,


Gosto muito dos teus olhos, minha flor de cerejeira

Na alvorada tela de uma fotografia

Como eu te beijava

Antes, depois, de acordar o dia,


Sentido a tua mão no toque do meu desejo

Ter-te sem medo que eu para ti

Seja apenas um tolo

Vestido de louco.


Francisco

05/05

Emerêncio

Emerêncio tudo teve, da vida que mereceu

Foi muito feliz, foi tão feliz que no final morreu

Antes de morrer palmeou os seios da Alzira adormecida

E teve na mão a flor desenhada por uma ausência merecida,

 

Mas Emerêncio tinha no seu sonhar

Que um dia poderia voar

E que de tanto o sonhar ficou tolo

E de tão o era tolo que um dia acordou bolo,

 

E que depois, muito mais depois de outro dia acontecer

Emerêncio reparou ao acordar

Que também o dia estava a morrer,

 

E Emerêncio entre a chuva e a maldição

E já cansado de remar

Percebeu que à tempestade pertencia o seu coração.

 

Francisco

05/05

04 maio 2026

o escuro, só

o escuro, só

são cor de mar os seios cânfaros da madrugada

são janelas de pedra, lacerando labaredas de néon

enquanto o corpo se despede da noite, o escuro, só.

 

são pedras semeadas no arvoredo em silenciar desespero

o sono é uma argola suspensa ao pescoço, que pede clemência

a cada espada espetada na terra, depois

são cor de mar os seios da madrugada, sós.

 

o escuro, só.

são gotas de água a saliva de uma árvore, invisível ao destino

que às vezes, e que tantas vezes, é comestível

é combustível para a morte.

 

e brinca, só, o menino

sem arte, e sem sorte

sem terra para amar…

e o escuro, está só, tão só como o mar.

 

Francisco

04/05

03 maio 2026

quando as estrelas estão escondidas

quando as estrelas estão escondidas

e a noite não te diz a verdade

e a noite não te escreve

nem a ouves dançar sobre a geada

quando as estrelas são lágrimas

e as palavras

meras palavras aprisionadas

na distância de um olhar.

 

quando as estrelas são outros mares

pedaços deste mar

quando as estrelas estão escondidas

e a noite é uma sonâmbula flor

na seara de um desejo

quando a noite é uma estrela

que te esconde a verdade

e te nega o beijo.

 

quando as estrelas estão escondidas

e dormem na mentira

e sonham com a difusa madrugada

quase nada

quase uma espada sobre a calçada

na noite separada por janela de luz

ou por um fio de sémen

na cruz.

 

Francisco

03/05

A espuma de uma fotografia

A minha cama é quase a espuma de uma fotografia

Quando a ausência é o amor da minha sombra

E o pincelar da última noite

Acorda na esquina do meu sol,


Depois regressa o fogo do teu olhar

E tudo o que era escuridão

É agora a tarde disfarçada de manhã

Na mão do poema,


Estou tão triste

Quando o outro relógio é quase também gelo

E fico sem tempo para te sonhar

E te querer.


Francisco

03/05

Foi na última distância do mar

Foi na última distância do mar

Que o livro semeou na tarde

O sorriso da tempestade

Foi na última distância do mar


Que a fogueira da chuva desenhou a árvore

No toque de uma fotografia

A luz do mar

Na vidraça de ontem


Aos meus poemas acreditando na esquina do amar

Cada sombra e cada barco

Um punhado de sangue

Sobre o derramado esperma de uma mágoa.


Francisco

03/05