18 março 2026

O teu corpo é o pincelar da última primavera

O teu corpo é o pincelar da última primavera, quando a ausência

É o amor que ficou na tarde

E é a melodia da chuva na flor do mar

Como são velhas, meu amor, as palavras que te escrevo

E que há muito deixaste de ler

 

Já não gostas do meu escrever

Como deixaste de gostar do

Meu olhar

E da minha mão sobre a folha de tinta

Que seduz o fogo que também é quase mar

 

E o teu corpo já não vou tocar

É o pincelar da última primavera, que o desejo

Que eu apenas sentia

Foi a última ceia

E depois, morri

 

Ao sentir a despedida do teu sexo, entre as palavras que foram escritas para disfarçar o fogo

Mas o vento semeou na tarde o silêncio

E ninguém sabia o nome

Da minha sombra

Que amou o sol

 

E sábado, meu amor

Voará sobre um oceano de sémen a luz

E acordará na cubata o sorriso

E

Será primavera outra vez na flor do mar.

 

18/03/2026, 19:26

Leio-te no olhar A carta que teimas em me escrever

Leio-te no olhar

A carta que teimas em me escrever

Dos teus olhos em mar

No mar que eu vejo a arder

 

O incêndio da primeira página de um livro inconstante

Que na mão de alguém, é só a primavera triste

Que escreve na eira ardente

A oração que resiste

 

E a sílaba da madrugada

Não desiste

Da proibida palavra

 

E que te leio, e que tanto te abraçava

Enquanto o universo assiste

Enquanto o universo chorava.

 

Alijó, 18/03/2026 – 12:12

Nem tu, acreditas no meu acreditar

Nem tu, compreendes

A minha inquietação, a minha incompreensão, por todos

Aqueles que me olham,

 

E que dizem, dizem

 

Que apenas sou coisa nenhuma

 

Alijó, 18/03/2026 – 11:55

Vamos lá, vamos

Vamos lá, vamos

Partimos, e voamos

E sentimos

E também, amamos

 

E sorrimos

Também agachados nas lágrimas de uma sombra desesperada

Valos lá, vamos

Vamos acordar a madrugada

 

E sabíamos, que o sentir

Era apenas uma vergasta na terra enxada

Vamos lá, vamos

E temos, ou que tínhamos

 

A cidade à nossa espera, vamos, vamos lá

Abrir a janela, erguer o dia

E saber, e sentir, e dizer o que te toda a gente sabia

Que o ser, ou o ter, são apenas poesia.

 

Alijó, 18/03/2026 – 05:57

17 março 2026

vertigem

(finalmente, o descanso)


da vertigem, a esfinge, meninge

o silêncio de uma pedra, quase vapor, quase água

saber onde ando, e nado

quando ainda é noite no espelho da aldeia

 

ele se senta, e fuma e incendeia

cada lágrima de sangue, que lhe choram as mãos

e é tempestade no abrigo, na igreja

onde a luz se vai esconder, quando o corpo morre

 

e se veste de infinitas poeiras, pequeninos grãos de saudade

que ficam, que emergem e que crescem

na sombra do plátano, na ribeira

vejo a vertigem, quase

 

migalha, a mesa em papeis dispersos, outros desenhos

muitos versos

coisas sem significado, sem nexo

o anexo que me esqueço de anexar

 

e saber que há outro mar, outro mar que me espera

do outro lado da indiferença, do triste olhar

que sabe sempre a mel

a despedida do amar.

 

Alijó, 17/03/2026 - 23:02

Não te percebo, entender o nome do vento

Não te percebo, entender o nome do vento

Que em nada, de nome, tem

Pois, talvez

Um dia, olha, talvez amanhã

Seja o dia mais lindo, mais belo e com poesia

 

O meu dia, meu amor

Se de amor poderei falar, escrever

Desenhar, e de tanto o ler

Talvez, talvez amanhã eu seja o pássaro

Mais feliz da gaiola

 

Ou o peixe mais louco, deste louco aquário

Talvez amanhã, pois

Olha, não dizes nada?

Nada que o sou, mais

Menos, menos

 

E menos com menos, dá mais

Mais

Mas, mais o quê, meu amor?

Se a terra é uma jangada sobre o vácuo, dos

Seios loucos, em vácuo, na chuva

 

Não te percebo, entender o nome do vento

E tanto, tanto que eu quero te perceber

Como percebo um pouco, um pouquinho

De matemática, de física, de mecânica, de carpintaria, de serralharia, electricidade, e talvez, talvez um dia, um dia eu te perceba.

 

Alijó, 17/03/2026, - 05:33

16 março 2026

Serei a sanzala quando ainda criança, voava nos lábios de uma mangueira

Serei a sanzala quando ainda criança, voava nos lábios de uma mangueira

Que não sabia o que era a paixão, ou até

O teu corpo em poesia

E tanta coisa que eu não sabia

 

Não sabia que autocarro da carreira, era

Machimbombo, e também não sabia, e o dizia

Que as gaivotas eram de pura porcelana virgem

E que transportavam no bico

 

A espuma do teu corpo, que naquela altura

Eu ainda nem te conhecia, mas adivinhava, e sabia

Que um dia

Eu, que um dia eu te encontraria

 

E te amava, serei a sanzala do veneno que se esconde no sexo de uma abelha, todo aquele mel, e ao longe os seios, e a aldeia

Besuntados e besuntada

Porque a palavra eu ainda não sabia

Nem as letras conhecia

 

Nem sabia que um dia te encontrava

………………….

 

(isto é, estou tão cansado que não me apetece continuar com esta treta, a última vez que folguei faz hoje oito dias, e só vou novamente folgar, quarta-feira, isto é, se o Óscar não ficar maluco, e dar comigo em maluco)

 

Alijó, 16/03/2026 – 21:24