02 fevereiro 2026

há-de ser, se o vento me trouxer a raiz cúbica de uma lágrima

há-de ser, depois foi apenas um pequeno desejo, um longo silêncio

depois apeou-se a lareira, e eu fiquei com frio

despido na maré de um olhar

depois deixei de ter mar, depois

 

há-de ser, se o vento me trouxer a raiz cúbica de uma lágrima, e do cansaço, as pedras lançadas, as veias quase em água, descendo o sangue às profundezas de um sorriso

depois, fiquei louco, depois fui aprisionado a um pequenino raio de sol

 

e há-de vencer a luz, e há-de crescer

na minha mão confusa, na minha mão tão trémula como trémulo foi o meu sonhar, em sonhar um sonho vestido de noite

quando ainda, havia na claridade, um poema em construção

e uma secretária entupida e recheada, de livros

 

e de folhas secas, folhas que sobejaram de uma árvore, que foi tempestade e que hoje

e que hoje é amor

e é a cama que me aquece, e abraça, e me toca

quando o meu corpo, despido, e despedido

se enforca, e se demora, numa vertida lágrima, e que o sono

seja novamente a tua mão, no meu peito

 

02/02/2026, 06:10

01 fevereiro 2026

só um poeta enforcado

foi varanda, assassina

foi faca, mas antes foi menina

é mulher, é flor em vento laminar

foi lua e foi o luar

 

foi seara, literatura

foi poema e também foi loucura

é mentira, é o destino

que o meu corpo de menino

 

seja uma sombra cansada e sem amar

foi barcaça e foi aliança

que sente o acordar

 

e que foi também o sonho tresloucado

que foi criança

e que hoje é só, só um poeta enforcado

 

01/02/2026, 15:25

do outro lado do sol

do outro lado do sol, será a escuridão, ou são os teus olhos

o primeiro pingo de chuva, a primeira ribeira a brotar da montanha

será que do outro lado do sol, muito longe da tua mão

habita a outra ribeira perdida, cansada e só

e só, uma ribeira adormecida

 

do outro lado do sol, talvez

seja mar, ou outra vertigem em forma de barco

que desce as escadas de acesso à última despedida

da noite que não quer, na noite que está de partida…

e que é corpo de mulher

 

mas do outro lado do sol, não existem janelas para abrir, é tão escuro que cada nova página do meu livro, é um rio sem braços, é um rio sem cabeça,

no olhar dos teus lábios, a arriba, que se suicida na distância de um novo mar, que também é um sonho

que também foi luar de uma lua de papel

 

do outro lado do sol, meu amor

eu te procuro, nua, vestida de estrelas e deitada sobre a candeia de uma vírgula desnorteada, tão faminta, e tão procurada

pelos pássaros da madrugada,

que se eu tocar no teu corpo, a minha mão se transforma em geada

 

01/02/2026, 09:38

Fevereiro, 1 DE

além-mar, metade do meu corpo, balança

dança e encanta

metade de mim, é pó

a outra metade, da meia metade da laranja, levita

e canta e também que chora

ao dispor de uma pistola, sobre a secretária

 

a caneta

a lágrima

do aparo da caneta, o rosto da seara, indiferente ao silêncio

de uma pedra, e sábado

sobre a mesa, uma lâmpada, quase sono

quase também pedra cinzenta

 

além-mar, metade do meu corpo é um barco, é uma safira, envenenada pela escuridão

que da outra metade que de mim sobrou, do ontem até

não me admira, que a janela seja encarnada, que o vento seja azul

ou a outra metade da laranja

 

uma outra lágrima.

 

01/02/2026, 00:32

 

E O TEU CORPO ME ENCANTA, ENQUANTO LHE TOCO E O BEIJO.

28 janeiro 2026

dia-meia-luz

Amamos a vida não porque estamos acostumados à vida, mas a amar. Há sempre alguma loucura no amor, mas há sempre também alguma razão na loucura.

 

Friedrich Nietzsche

A tela

as cores deitam-se sobre a tela

rios de sono, ribeiras em desalento, o passeio junto ao rio

que se envenena com o silêncio do luar

que cada barco que em si poisa, é uma maçã encarnada

semeada na tarde, na tarde espada

que a mão toca, que a mão lança

contra o vento, que chora, e que balança

e a branca tela, minutos após, se veste de janela

e de lá,

e de lá oiço o mar

 

28/01/2026, 14:07

este mar

e o mar se senta na minha mão

e me pede perdão

perdão por me abandonar

e este salgado mar

que não cessa de chorar

é o mar

que se senta na minha mão

com medo de voar

de voar no meu coração

 

e este mar aqui sentado

na minha mão quase noite de tempestade

a minha mão está tão fria

que deixei de sentir

a caneta entre os dedos doridos

e o mar

se senta na minha mão

e me pede perdão

por todos os meus dias sofridos

 

28/01/2026, 05:03