28 junho 2026

Da noite quase dia, meu amor

Da noite quase dia, meu amor

Cada janela por abrir, cada porta por encerrar

É quase dia, meu amor

É quase mar

 

Em flor

Da noite quase dia, do dia que nada vai trazer

Mais um dia, mais um sofrer

Da noite quase dia, meu amor, a terra a tremer

 

As flores e a flor, no quase dia

Trazem as palavras escritas na mão, quase dia

Da noite que se despede, na noite sem alegria

Quase noite, depois do dia

 

Quase mão em poesia

Da noite quase dia, meu amor

Da noite quase flor, no quase dia

Do quase amar, deste dia.

 

28/06
03:47

No teu corpo

Se no teu corpo eu me deitar

Se do teu corpo eu me sonhar

Se no teu corpo eu semear

O mar,

 

Do mar amar o teu corpo de mar.

 

28/06
03:37

27 junho 2026

A vida é um socalco

A vida é um socalco

Um vinhedo na superfície da ausência

É o xisto

A vida é uma enxada na mão de uma outra enxada

 

A vida

Às vezes

Às vezes a vida não é nada

Mas a vida também é uma roda uma roda dentada

 

Também é a vida uma espada

Cravada na mão da madrugada

A vida é um socalco

Que não se cansa de olhar o rio encurvado

 

27/06
22:19

Meia-laranja, meia-rodela na laranja versada

Meia-laranja, meia-rodela na laranja versada

Meia-laranja na ânsia e na ponta da espada

Meia-laranja cortada

Meia-laranja versada

 

Meia-laranja cansada, laminada

Na porcelana, meia-laranja inventada

Na ribeira do oriente, da ribeira sem nada

A meia-laranja versada

 

Meia-laranja, meia-rodela na laranja versada

Doce, na doçura da meia-laranja cortada

Em rodelas, em lâminas a meia-laranja versada

Meia-laranja, meia-rodela na laranja amada.

 

27/06
21:55

À sombra de uma espiga, o aço de uma viga

À sombra de uma espiga, o aço de uma viga

Que suporta a tristeza

E a vida,

À sombra de uma espiga, a loira espiga de trigo, o mar

Está cansado, tão cansado de caminhar

 

Tão cansado, cansado de sonhar

À sombra de uma loira espiga de trigo, quando regressa a noite

E o pão se veste de lua, as migalhas do pão

São estrelas

São estrelas sem luar

 

À sombra de uma espiga, de uma loira espiga de trigo

Que o vento embala, e que a balança sobre o néon da madrugada

Que é também e advém da misera luz

Do rio dos seios que o corpo esconde

À sombra de uma loira espiga de trigo, sem nome.

 

27/06
21:27

Abre-se a porta, havia uma fina lâmina de sombra que abraçava a mesa, sobre ela, ela

Abre-se a porta, havia uma fina lâmina de sombra que abraçava a mesa, sobre ela, ela

Outra mesa, mais nova, mais pequena, mas também

Mais cansada, e muito mais desorientada do que a charrua puxada pela mão do limbo, quando o sol é lua, quando a chuva é o silêncio, na espuma do tempo.

Abre-se a porta, algumas migalhas de luz, sobre a mesa, sob a mesa, a mão que depois de puxar a charrua se escondeu, e desde então

Nunca dia mais foi.

Uma criança acena-me, sorri e grita o meu nome, há tanto tempo que ninguém gritava o meu nome, há tanto tempo que não ouvia, e que não sentia,

Um sorriso.

Abre-se a porta, abre-se a porta e eu acreditava que um dia, um círculo de luz com olhos verdes me visitava, escrevi-o

E o José Luís Peixoto escolheu o meu texto dos cerca de setecentos textos a concurso para o conte connosco dois, fiquei contente, depois deixei de o ficar

Abre-se a porta, e na seminua voz a encarnação do destino, da janela, pouca coisa e muita coisa para se ver, para se observar, enquanto o barco não chega, para me levar.

Abre-se a porta, havia uma fina lâmina de sombra que abraçava a mesa, sobre ela, ela

Outra mesa, mais nova, mais pequena.

 

27/06
19:20

ninguém é o sol, e eu nem pedra consigo ser

ninguém é o sol, e eu

nem pedra consigo ser

lá fora gente, em movimento

que sente

que está doente

que está triste

porque são gente

ninguém é o sol, e eu

 

e eu nem poeta nem pedra consigo ser

talvez venha a ser

matemático, e resolver

equações impossíveis de resolver

mas será que existe o impossível?

o que é uma coisa impossível?

ninguém é o sol, e eu

nem pedra consigo ser

 

27/03
18:54