Talvez nunca te diga o nome daquele barco
Também porque quererias tu
saber o nome daquele barco
Se nada de mim te
interessa
Se nada do que tenho em
nada ter te interessa
04/06
16:24
Voávamos nas margens infinitas de um olhar
Capaz do louvor ardente
em outras ruas e nomes
Os ausentes
Trabalhos
Incapaz de voar e de saber
que há no silêncio de uma vírgula
A saliva do desejo em não
o desejar
Na cama uma abelha acaricia
o sexo de uma sombra
E têm os seios da sombra as
aspas da madrugada
Que é a sebenta e que é a
luz molhada
Que traz do mar
A triste estrela
E o fim de um olhar
E o que fazer com a
janela que está encerrada
Na quase maré e incenso
da boca
Que o sexo da sombra é o
mergulho
No sangue oculto
Encarnado da abelha
Na esperma cama que a
noite adivinha
04/06
10:27
Esse seu jeito
De nenhum ter jeito
Vai o magma solar brotar
De seus seios
envergonhados
Esse seu jeito
De nenhum jeito ter
De o mar
Ser as lágrimas de homens
soldados
Vai o magma solar
Se erguer do escuro medo
de uma tempestade
Mas há sempre outro mar
No mar da saudade
Esse seu jeito
De nenhum ter jeito
Que no mel dos seus
lábios uma fogueira
Morre a cada beijo
imaginário
E o infinito é o abismo e
é a lareira
E o átomo do operário
Que traz ópio na
algibeira
Sem saber
Que o amor
É a lágrima de uma
ribeira
04/06
04:44
O poeta nunca saberá
porque chorava a Adosinda
O poeta nunca saberá
porque versos lia a Adosinda
O poeta nunca saberá
porque gosta Adosinda de ser fodia por trás
O poeta nunca saberá porque
gosta da lua a Adosinda
O poeta nunca saberá a
cor dos seios da Adosinda
O poeta nunca saberá
porque morrem todas as Adosindas à nascença
O poeta nunca saberá
porque são outras as lágrimas da Adosinda
03/06
23:00
Acordava sentada sobre o
veneno da geada
Sabia que eram escassas
as migalhas
E eram lamentos
Os alimentos
E as esquecidas limalhas
E os aquecidos meteoros
nos milhafres em ausência
As oliveiras e o centeio
O milho
A lavra quase safada
Na safadinha lua em luar
Que nós sentimos o vento
entre os parêntesis curvos
Na sombra curvatura quase
fruta calibrada e madrasta
Que a equação está quase
resolvida
E que a solução
É uma noite perfeita e perdida
Que sente e sente a
despedida
Em cada dia em cada
mobília já sonolenta
Entre o eu e o eu
Que não sabe distinguir o
veio do trigo
E de trigo estão eles
conversados
Acordava sentada sobre o
veneno da geada
Sabia que eram escassas
as migalhas
E trazia na saia
A sábia andorinha de luz
Que quando acordava
sentia-se ventrada e amada
03/06
22:47
Vamos falar de ódio que
te odeio, imagina um cubo invisível, tão invisível que apenas consegues
imaginar cada ponto que gravita cada vértice
Imagina que te odeio,
imagina agora dentro do cubo um ponto, um ponto tão irrequieto, que é impossível
determinar em cada instante a sua posição, que te odeio tanto
Que te dispo, que toco no
teu sexo, imagina-o agora de mão dada com o ponto que há pouco imaginaste, o
ponto irrequieto, imagina agora esse sexo, desculpa, imagina agora esse ponto
que anda de mão dada com o teu sexo,
E no entanto, e no
entanto nada existe, porque é impossível aprisionar o que quer que seja dentro
de um cubo imaginário, porque foste tu que o imaginaste e apenas ele existe na
tua cabeça
Imagina que tanto te
odeio, que se sentisse na minha mão os teus seios, eu te odiava, tanto, que nos
teus lábios construía uma cabana, uma selva sem destino, uma porta e o timbre
nocturno
Imagina agora também
junto ao ponto dentro do cubo que imaginaste e que o mesmo ponto também ele,
também ele imaginado pelo teu sexo, desculpa
Imaginado por ti, não
existe
Mas, e se o cubo existir
mesmo? Já pensaste nisso?
E se o cubo existir e se
o teu sexo e o ponto, esses sim, não existem
E se o teu sexo não existe,
logo
Tu também não existes
E se dentro do cubo existir
um mar de nome mar, que de tão belo e o belo de o ser, que é cada vez mais o
tédio em te odiar
Desculpa, em viver nesse
mar, mas que mar é este, se este mar está dentro do cubo, e há pouco decidimos
que, que tudo o que estiver dentro do cubo, não existe, apenas existem quatro
pontos cada um sem nome, dois deles, ainda menores de idade, mas o cubo só
existe na tua cabeça, o cubo é a tua cabeça, mas dentro do cubo deixou de
existir o ponto, o teu sexo e agora o mar, e se nada disto existir?
Decidimos que dentro do
teu cubo imaginado por ti, a partir de agora, não existe, é o vácuo
E do vácuo escutamos a
mecânica clássica, imagina agora o teu cubo em rotação à volta de um eixo
imaginário, claro, como o cubo e como o eixo da terra, tudo, imagina que te
odeio cada vez mais, tanto que toco na tua vagina, e
Desculpa, e a velocidade
do teu cubo é de trinta metros por segundo, mas
E se o cubo, quase como
uma fotografia à la minuta, desaparecer, deixar de existir
E, e agora? Onde está
agora o teu cubo?
Deixaste-o de imaginar,
Imagina que o tempo não
existe, sim, o que é o tempo afinal?
Um segundo parece um
minuto, e enquanto te masturbo, uma tarde parece um segundo
Desculpa, quanto tens um
ferro em brasa na mão, um segundo parece um minuto
Isto foi a explicação que
Einstein deu à catraia lá do bairro sobre a relatividade,
Imagina um cubo sem
janelas, imagina um cubo sem portas, imagina que tanto te odeio, que bebo dos
teus seios a vergonha em ser artista, quando eu
Devia estar a imaginar um
cubo, apenas quatro pontos, os pontos apenas estão unidos por um olhar, o cubo
é tão pequeno, mas tão pequeno, que
Não existe, porque foi
apenas um cubo imaginário
E já agora, quantos cubos
imaginados por mim têm portas e têm janelas, no vácuo
Vamos falar de ódio que
te odeio tanto, imagina um cubo...
01/06
21:50