04 junho 2026

Talvez nunca te diga o nome daquele barco

Também porque quererias tu saber o nome daquele barco

Se nada de mim te interessa

Se nada do que tenho em nada ter te interessa

 

04/06
16:24

Voávamos nas margens infinitas de um olhar

Voávamos nas margens infinitas de um olhar

Capaz do louvor ardente em outras ruas e nomes

Os ausentes

Trabalhos

Incapaz de voar e de saber que há no silêncio de uma vírgula

A saliva do desejo em não o desejar

 

Na cama uma abelha acaricia o sexo de uma sombra

E têm os seios da sombra as aspas da madrugada

Que é a sebenta e que é a luz molhada

Que traz do mar

A triste estrela

E o fim de um olhar

 

E o que fazer com a janela que está encerrada

Na quase maré e incenso da boca

Que o sexo da sombra é o mergulho

No sangue oculto

Encarnado da abelha

Na esperma cama que a noite adivinha

 

04/06
10:27

Cada poema é uma cama envenenada na vagina da noite,

É uma gaivota entre as palavras e as aspas do mar, 

E é o silêncio de um olhar. 

Esse seu jeito

Esse seu jeito

De nenhum ter jeito

Vai o magma solar brotar

De seus seios envergonhados

Esse seu jeito

De nenhum jeito ter

De o mar

Ser as lágrimas de homens soldados

 

Vai o magma solar

Se erguer do escuro medo de uma tempestade

Mas há sempre outro mar

No mar da saudade

 

Esse seu jeito

De nenhum ter jeito

Que no mel dos seus lábios uma fogueira

Morre a cada beijo imaginário

E o infinito é o abismo e é a lareira

E o átomo do operário

Que traz ópio na algibeira

Sem saber

Que o amor

É a lágrima de uma ribeira

 

04/06
04:44

03 junho 2026

O poeta

O poeta nunca saberá porque chorava a Adosinda

O poeta nunca saberá porque versos lia a Adosinda

O poeta nunca saberá porque gosta Adosinda de ser fodia por trás

O poeta nunca saberá porque gosta da lua a Adosinda

O poeta nunca saberá a cor dos seios da Adosinda

O poeta nunca saberá porque morrem todas as Adosindas à nascença

O poeta nunca saberá porque são outras as lágrimas da Adosinda

 

03/06
23:00

Acordava sentada sobre o veneno da geada

Acordava sentada sobre o veneno da geada

Sabia que eram escassas as migalhas

E eram lamentos

Os alimentos

E as esquecidas limalhas

 

E os aquecidos meteoros nos milhafres em ausência

As oliveiras e o centeio

O milho

A lavra quase safada

Na safadinha lua em luar

 

Que nós sentimos o vento entre os parêntesis curvos

Na sombra curvatura quase fruta calibrada e madrasta

Que a equação está quase resolvida

E que a solução

É uma noite perfeita e perdida

 

Que sente e sente a despedida

Em cada dia em cada mobília já sonolenta

Entre o eu e o eu

Que não sabe distinguir o veio do trigo

E de trigo estão eles conversados

 

Acordava sentada sobre o veneno da geada

Sabia que eram escassas as migalhas

E trazia na saia

A sábia andorinha de luz

Que quando acordava sentia-se ventrada e amada

 

03/06
22:47

01 junho 2026

Vamos falar de ódio que te odeio,

Vamos falar de ódio que te odeio, imagina um cubo invisível, tão invisível que apenas consegues imaginar cada ponto que gravita cada vértice

Imagina que te odeio, imagina agora dentro do cubo um ponto, um ponto tão irrequieto, que é impossível determinar em cada instante a sua posição, que te odeio tanto

Que te dispo, que toco no teu sexo, imagina-o agora de mão dada com o ponto que há pouco imaginaste, o ponto irrequieto, imagina agora esse sexo, desculpa, imagina agora esse ponto que anda de mão dada com o teu sexo,

E no entanto, e no entanto nada existe, porque é impossível aprisionar o que quer que seja dentro de um cubo imaginário, porque foste tu que o imaginaste e apenas ele existe na tua cabeça

Imagina que tanto te odeio, que se sentisse na minha mão os teus seios, eu te odiava, tanto, que nos teus lábios construía uma cabana, uma selva sem destino, uma porta e o timbre nocturno

Imagina agora também junto ao ponto dentro do cubo que imaginaste e que o mesmo ponto também ele, também ele imaginado pelo teu sexo, desculpa

Imaginado por ti, não existe

Mas, e se o cubo existir mesmo? Já pensaste nisso?

E se o cubo existir e se o teu sexo e o ponto, esses sim, não existem

E se o teu sexo não existe, logo

Tu também não existes

E se dentro do cubo existir um mar de nome mar, que de tão belo e o belo de o ser, que é cada vez mais o tédio em te odiar

Desculpa, em viver nesse mar, mas que mar é este, se este mar está dentro do cubo, e há pouco decidimos que, que tudo o que estiver dentro do cubo, não existe, apenas existem quatro pontos cada um sem nome, dois deles, ainda menores de idade, mas o cubo só existe na tua cabeça, o cubo é a tua cabeça, mas dentro do cubo deixou de existir o ponto, o teu sexo e agora o mar, e se nada disto existir?

Decidimos que dentro do teu cubo imaginado por ti, a partir de agora, não existe, é o vácuo

E do vácuo escutamos a mecânica clássica, imagina agora o teu cubo em rotação à volta de um eixo imaginário, claro, como o cubo e como o eixo da terra, tudo, imagina que te odeio cada vez mais, tanto que toco na tua vagina, e

Desculpa, e a velocidade do teu cubo é de trinta metros por segundo, mas

E se o cubo, quase como uma fotografia à la minuta, desaparecer, deixar de existir

E, e agora? Onde está agora o teu cubo?

Deixaste-o de imaginar,

Imagina que o tempo não existe, sim, o que é o tempo afinal?

Um segundo parece um minuto, e enquanto te masturbo, uma tarde parece um segundo

Desculpa, quanto tens um ferro em brasa na mão, um segundo parece um minuto

Isto foi a explicação que Einstein deu à catraia lá do bairro sobre a relatividade,

Imagina um cubo sem janelas, imagina um cubo sem portas, imagina que tanto te odeio, que bebo dos teus seios a vergonha em ser artista, quando eu

Devia estar a imaginar um cubo, apenas quatro pontos, os pontos apenas estão unidos por um olhar, o cubo é tão pequeno, mas tão pequeno, que

Não existe, porque foi apenas um cubo imaginário

E já agora, quantos cubos imaginados por mim têm portas e têm janelas, no vácuo

Vamos falar de ódio que te odeio tanto, imagina um cubo...

 

01/06
21:50