01 junho 2026

Este mar

Que parvo que eu fui, em acreditar

Que parvo que eu sou, em sonhar

Que tolo que eu fui, em amar

Quando é impossível amar, este mar

 

01/06
21:11

Brevemente - António Lobo Antunes (poemas)

Só e tão só me ausento de ti

A sensação de estar morto

Só, no silêncio dos teus olhos

A noite que voou sobre a geada da última estrela

Em verso no teu corpo


Só, tão só me despeço do teu olhar

Como se fosse um pedaço de pedra

Lançada contra os meus poemas

Que ardem na floreira do mar


E tão só me ausento de ti e em ti

Na alvorada manhã em fogo

Que a escuridão da chuva

Não sabe amar o mar de tinta que dorme na tua pele


01/06

19:44

desencanto dos teus olhos

do alentado desalento desencanto dos teus olhos

se a vertigem o deixar, na procura e na distância

quando da lua a sonolência ausência da tua mão

em medo de me tocar

 

o medo dos teus lábios em me beijar

no círculo lunar e polar

no corrupio e sinistro do meu viver

neste abismo marítimo de existir e em te amar

 

sentido o vento fatiado sobre a espuma da voz

de ouvir-te gritar quando a noite é criança

e quando a noite é o sonhar

de uma lágrima em revolta

 

sentindo o fogo no abismo destino de brincar

se ao menos tivesse na cara uma mão para me acariciar

se ao menos existissem nas palavras

sementes para eu semear

 

para eu semear na terra desventrada

a tarde disfarçada e miserável areia de lançar contra a urze

o dia capaz de o ser, e de se erguer

acreditando na palavra

 

dispensando a fama e o viver

rejeitando a vida e rejeitando o ser

que os teus olhos na vertigem e em vertigem

desenham a raiz quadrada do amanhecer

 

01/06
05:17

31 maio 2026

O clitóris estrelar

Uma vagão de esperma na fúria janela da morte

Uma fome na cama e um hospício doente na fimbria urtiga do adeus

Os testículos estão contentes

Que do pénis ausente não sente

E sente o clitóris estrelar

 

Uma vagina em viagem e sem passaporte

Uma cama doente e que sente e que teima em não ter dentro dela o divã da espuma em pequenos Óis

 

O papiro e o gajo que se masturba em frente ao espelho

O gajo que embruxa e que bocha

A boca da noite

Na noite testicular de uma mão

 

A boca questiona-o e dizia-se o ventre desventrado

E que hoje sabe que tem no cu o diabo

E na barriga as amêndoas da primavera

Um comboio que não espera

 

A cama suja e derramada e sem nada sobre a tábua em lira de canto

A janela é hoje um vagão de esperma em fúria

Na fúria de uma janela sem arte nem sorte de morrer.

 

31/05
21:35

 

Até que o vento seja gente, que teima e que sente

E que mente

E se ausenta na denúncia de uma carta

Que o grito semeia na geada a sanzala da meia-noite

Que o diga o Diógenes mais Diógenes do universo centro e verso da galáxia de um adeus

Que se parte em pedaços a porcelanas

Que as ferragens são grana

E a rama do batatal alheio e concreto

No céu um outro olhar

Na terra uma divina canção e do meu eu

Sem nome

Sem fome como eu

Nos primeiros beijos da despedida

Sentida que o era ter e deixar de ser a algibeira de uma canoa

Que voava e que já não voa

Que doida é a igreja do meu sentir

Que doida é a tristeza do meu sorrir

Que tantas vezes são vezes sete vezes ao quadrado

Que a raiz cúbica não é hoje mais a solidão de uma lâmpada

Tejo

Ao longe te vejo e te quero nos braços

Tejo.

Que tanto eu de ti preciso.

A voz

A voz era erguida

Na curva viva da vida

A voz era sentida

Assistida e assumidamente perdida

 

A voz que era gigante

Tão o era como a morte de muita gente

Que vive e teima e que sente

A morte de outra tanta gente

 

A voz que mente

A voz que escreve na noz e em vós este meu ser ausente

De tão longe que vim e que fui e que sou um vidente

Na curva a última jangada para o além lactante

 

Amém menino

O néon quase a voz do destino

A voz era erguida no lamento do sino

Que a torre o tenha em descansado deus e tino

 

Que a voz era erguida

Na curva viva da vida

Que a voz sabia e percebia e que era também sentida

Na estrada da vida e na morte vida que viva.

 

31/05
21:15