14 maio 2026
Bem-aventurados
Bem-aventurados o
sejamos, os cúmplices
Os desgovernados e místicos,
pedintes e sós
Se cada obra terminada acordasse
a maresia de um olhar
Capaz de transpor a linha
que separa o dia da noite
A luz e a escuridão de um
viver, o acorrentado viver
Sabendo que do outro lado
do mar, existe
Viveu a grandiosa e mística
pedra-pomes
Que lançada ao vento, é o
amanhecer estampado na aurora boreal
Por cada estrela que
morre, nascem milhões de estrelas
E para quê tanta estrela,
tanto planeta, buracos negros
E gajas boas, se tão
poucos somos no planeta terra
Para tanta coisa
desnecessária e obreira e séria
Viver acreditando que amanhã…
Mas amanhã já é um outro
amanhã, mais frio ou mais quente
Mais volátil ou menos
sonâmbulo, tanto faz
Tanto faz para quem há
muito deixou de ter amanhã
Bem-aventurados
Que se o soubéssemos, era
capaz de pular o muro
E ir ao encontro do mar
Que o mar será sempre a
lua de um olhar, com olhos de mar.
Francisco
14/05
21:38
O beijo
Os teus olhos são o poema.
O poema escrito nos teus
lábios de amêndoa,
Quando cai a madrugada,
E a geada,
Engorda,
Não aguenta,
O beijo feitiço,
Da tua boca envergonhada.
Os teus olhos são o
poema.
O poema inventado numa
noite de tristeza,
Fico triste eu,
Ficas triste tu…
Porque o luar,
Junto ao mar…
Deixou de nos pertencer.
Grito,
Escrevo,
Escrever,
Que quando te vejo,
Tremo,
Fujo,
Adormeço.
Daqui a pouco é dia
Daqui a pouco é dia
Daqui a pouco é vento de nortada
É alegria
É quase uma mão na boca do corpo
Que se desenvolve e que descansa
Que orgulho em ser libertado
E
E daqui a pouco é vento
E é dia de um dia na semana de um guarda-chuva
Que tinha e que sentia
Lisboa na algibeira
Que tinha a luz do mar
Rua e sentir o ter de um dia
Depois vou tocar na alvorada
Na esquina do amar o que não é amar
É silêncio
É quase dia o evangelho diurno do dia
Que eu o seja
Que eu nunca a tenha nas páginas de um rio
Saturno menino saturados sejam os teus olhos
Pelo veneno frio e gélido de um relógio
Que tinha na cabeça um pedaço de pedra
Que sabia
Sentia o pouco que daqui é dia.
Francisco
14/05
Sentado estarei sobre a folha onde escrevo
13 maio 2026
Era o fogo que estava no silêncio
Era o fogo que estava no silêncio
Porque o silêncio é o pincelar da manhã
Era a saudade de uma fotografia
Dentro do caderno negro,
E eu pertencia ao jardim do mar
E eu fui barco
E fui menino
Na alvorada do sul,
Fui feliz nos teus braços e não mais te sonharei
Porque a chuva trouxe a roupa que também era
Era o verso mais lindo
Do Tejo flor na sombra de um pedaço de alumínio,
Era o fogo
Depois era o frio
E eu tão feliz na mão de um relógio
Quase a parar no tempo,
Depois dormíamos
Eu vestido de lua
E tu
Que dançavas sob a chuva,
Depois sentia a rotação das coisas
Tinha vómitos intensos
Depois muito calor
Depois muito frio,
Era o fogo que estava no silêncio
Que eu ardia nos teus braços
Que eu não te fodia
Porque eu ardia nos teus braços,
Vinha a noite e eu chorava
E da na noite ficava
Adormecia e sonhava
Um dia ir a Fátima a pé.
Francisco
13/05
Da luz do mar
Não terminou ainda a luz do mar que eu não tenho nem viver
Se vivendo eu o quisesse
E temesse ser a corda da última forca
Ou a bala disparada
A carta recebida
Não terminou ainda a luz do mar que eu não tenho nem viver o sentir
Despido e que hoje é dia de uma fotografia
Não terminou
O fogo e o sentir do outro relógio amputado e não mais acreditar no silêncio
Que a escuridão do mar é quase a mesma coisa do que a razão
E o que sobrou?
Da luz do mar...
Francisco
13/05
19:18
