06 abril 2026

daqui, talvez em só voo

daqui, talvez em só voo

voo talvez no só inverno quando criança

sabia que havia uma lâmpada, do outro lado do muro

que todas as noites, assobiava

e escrevia nas faúlhas de uma mão

palavras de incendiar o destino

 

e a criança, e um outro menino

cansados de saber que havia do outro lado do muro

uma lâmpada que assobiava

e escrevia?

palavras de incendiar?

escalaram o muro, e de um salto de pardal

 

começaram a escutar o cuco, também, do outro lado do muro

voo e só despistado em contramão, de espingarda

na algibeira

coçando os tomates com a livre mão

depois, arregaçava as mangas

e percebia que também era

 

lâmpada

lâmpada, pai?

sim

lâmpada

então posso assobiar

e escrever

 

palavras do destino?

não, meu rapaz

não são palavras do destino

então pai?

daqui, talvez em só voo

voo talvez no só inverno quando criança

 

sabia que havia uma lâmpada, do outro lado do muro

que todas as noites, assobiava

e escrevia nas faúlhas de uma mão

palavras de incendiar o destino

que um dia, uma criança e um menino

desenharam a primavera numa esfera de luz

 

06/04/2026, 21:51

Que é hoje

 

perdi o teu nome numa seara de inverno

perdi o teu nome numa seara de inverno

que se vestia de púrpura madrugada

perdi o meu nome quando ainda era inferno

a minha vida e cada palavra

 

que escrevia no sono lunar

perdi o meu nome

e a vontade de sonhar

porque a fome

 

é o meu viver

perdi o meu nome numa seara de inverno

e agora não tenho nome nem tenho vontade de querer

 

porque sem nome sou uma árvores nua e despida

no silêncio eterno

na ausência e na partida

 

06/04/2026, 13:18

por aí...






entrava na escuridão, apagava a luz e sentava-se numa cadeira inventada

entrava na escuridão, apagava a luz

e sentava-se numa cadeira inventada

às vezes, tão cansada, ela, a cadeira

que eu com pena dela, nem me sentava

e ficava à janela

a ver o barco das seis da manhã

 

às vezes, que tantas vezes, eu me olhava

no espelho vestido de noite, e sentia, no olhar dele

a melodia de um sorriso, tão fino e tão belo

como o luar, ou até como uma jarra com flores

sobre uma lápide de desejo

que também vivia na escuridão

 

anos mais tarde, acendeu a luz

e a rua que lhe pertenceu, deixou de lhe pertencer

e hoje, nem rua é, nem ele o é

é sempre dia, é sempre no beijo

que enquanto houve escuridão

ele se venceu, e eu, e eu me esqueci de viver

 

06/04/2026, 06:01