06 abril 2026

entrava na escuridão, apagava a luz e sentava-se numa cadeira inventada

entrava na escuridão, apagava a luz

e sentava-se numa cadeira inventada

às vezes, tão cansada, ela, a cadeira

que eu com pena dela, nem me sentava

e ficava à janela

a ver o barco das seis da manhã

 

às vezes, que tantas vezes, eu me olhava

no espelho vestido de noite, e sentia, no olhar dele

a melodia de um sorriso, tão fino e tão belo

como o luar, ou até como uma jarra com flores

sobre uma lápide de desejo

que também vivia na escuridão

 

anos mais tarde, acendeu a luz

e a rua que lhe pertenceu, deixou de lhe pertencer

e hoje, nem rua é, nem ele o é

é sempre dia, é sempre no beijo

que enquanto houve escuridão

ele se venceu, e eu, e eu me esqueci de viver

 

06/04/2026, 06:01