10 julho 2026

As lágrimas da madrugada

Promessas, quase a noite sentia o musseque, enquanto lá fora, do outro lado do rio

Um qualquer algoritmo, muito mais fraquinho do que eu, que nem é carne, que nunca será o peixe, mas

Mas nesse musseque vivia um crocodilo, não, não meus queridos amigos,

Não é o “Crocodilo que voa” do Pacheco,

Este é outro crocodilo, mais esbelto, mais refinado, e educado

E que nunca ninguém lhe ouviu da sua aparelhagem stereo “puta que os pariu),

Como o Crocodilo do Pacheco

Mas este crocodilo sabia-a toda, parecia o Ferro a desmontar auto-rádios durante a noite,

Mal chegava ao tribunal,

Bom dia senhor Ferro, por aqui outra vez,

É verdade, meritíssima juíza, é verdade

É a minha sina, e a desgraça da minha filhinha

Que tivesse pensado na filha antes, e que iria passar mais uns dias de férias, férias no sombreado da ausência, humana.

O crocodilo, às terças-feiras e sábados, sentia vómitos

Sentia-se aflitamente, aflito

Doidito do corpito, e dos olhos. O musseque nunca dormia, ou ao longe

Um mabeco, se ouvia

Ou ao perto uma galinha cacarejava, e muito mais ao perto,

Uma mulher fodia e gemia e desejava, e também cantava.

No musseque tudo se podia, e tudo se fazia, e de nada valia

Fugir, como o Ferro que pensava que o conseguia. Um dia.

Porque um dia ele ao musseque voltaria, isto é, não eu, mas o crocodilo que vivia no musseque,

Não Ferro, fugir, é impossível.

Felizes aqueles que nem o corpo conseguem encontrar, e cada friesta, e cada pausa, doce e meiga, quando o capim nas nádegas lhe tocava, e ela

Sentia, o vento que trazia o cacimbo, que fazia a terra se erguer às quatro da madrugada,

E ninguém queria comer as raízes nocturnas de um sonho,

Tão pouco,

As lágrimas da madrugada.

 

 

10/07
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