07 abril 2026

Era quase meia-noite, meia-luz dentro da carruagem

Era quase meia-noite, meia-luz dentro da carruagem, éramos quase gente, no meio de tanta gente, e mesmo assim, sabíamos que do outro lado do mar havia um círculo de luz com olhos verdes,

Que do outro lado do mar,

Pai, porque choravam as acácias da minha infância, porque

Que do outro lado do mar, outra casa, outra mulher

Outra rua, outro número de polícia,

E sabíamos, e tínhamos sempre na algibeira os fósforos, os cigarros, as cartas que escrevíamos, e havia do outro lado do mar

A voz,

E o silêncio de uma outra mulher, na ausência de uma espada, quando da calçada ele,

Cantava,

Sorria,

E que depois, fingia ser um verme, uma libélula friorenta, tão ciumenta como o eram todas as libélulas de todo aquele oceano de luz.

Cada sombra era uma janela, era um aquário com três peixes, alguns arbustos e quem sabe, até então desconhecido por toda aquela gente,

O vento,

Vestido de ave-maria, enfeitiçado pelo sorriso de um soldado, que se revoltava a cada ordem recebida, que fugia, e que

O comboio para Santa Apolónia parte daqui a cinco minutos, um relógio sofria, não dormia, e corria

A cada segundo de silêncio, que às vezes a espingarda do soldado lançava contra o muro, e também sabíamos que do outro lado do mar,

Os mabecos estavam felizes, tão

Que um dia o rapaz que se dizia filho do soba, que de nada lhe sobreva e acreditava, que a charrua pertencia à terra lavrada, que quando sentia a janela entreaberta,

Pulava o muro, e depois

Sentava-se junto ao rio, em pouca despedida.

Do céu recebíamos as moedas e conchinhas e marés de inverno, nas mãos calcinadas pelo frio gélido de uma certa madrugada, o assalto ao castelo, a ferrugem que nos olhava das vigas em aço, que no braço, de aço quase nenhum, como nós o éramos,

Quase anda, dentro de uma carruagem de gente, com gente tanta, que

Os soldados daí para cá passaram a ser gente, e então

A gente saía todas as noites, e todas as noites, a cada meia-luz, e a cada meia-noite, a carruagem percorria cada rua e ruela e calçada e ribeiro e ribeira e o rio, que brincavam junto ao Tejo, depois do outro lado do mar.

Um barco regressava das colónias, coitado

Tão cansado que ele estava, que já em casa, apenas um banho e um copo de leite e uma torrada e a leitura de um poema, o separavam da noite e de uma cama deitada, sobre um soalho ondulante, que às vezes era salgado, que às vezes

Pertencia ao destino.

O meu pai palmilhava cada lágrima do musseque, e com um pequeno cordel passeava uma camionete e eu passeava um triciclo sob o olhar atento das mangueiras e de uma parvalhão de um boneco e que quando chovia,

O barco acordava, atravessava o Tejo, e

Do outro lado do rio, numa outra cidade, numa outra rua, sem saída, às vezes

E a areia era tão fina e tão branca, e tão

Uma voz rouca emergia do fundo de todo aquele oceano de luz, e então ouvíamos, nós os soldados, e a restante gente, daquela louca carruagem,

Santa Apolónia.

Uma outra voz, essa no interior da carruagem,

Estamos fodidos; chegamos.

 

Alijó, 07/04/2026 – 03:32