Era quase meia-noite,
meia-luz dentro da carruagem, éramos quase gente, no meio de tanta gente, e
mesmo assim, sabíamos que do outro lado do mar havia um círculo de luz com
olhos verdes,
Que do outro lado do mar,
Pai, porque choravam as
acácias da minha infância, porque
Que do outro lado do mar,
outra casa, outra mulher
Outra rua, outro número
de polícia,
E sabíamos, e tínhamos
sempre na algibeira os fósforos, os cigarros, as cartas que escrevíamos, e
havia do outro lado do mar
A voz,
E o silêncio de uma outra
mulher, na ausência de uma espada, quando da calçada ele,
Cantava,
Sorria,
E que depois, fingia ser
um verme, uma libélula friorenta, tão ciumenta como o eram todas as libélulas de
todo aquele oceano de luz.
Cada sombra era uma
janela, era um aquário com três peixes, alguns arbustos e quem sabe, até então
desconhecido por toda aquela gente,
O vento,
Vestido de ave-maria, enfeitiçado
pelo sorriso de um soldado, que se revoltava a cada ordem recebida, que fugia,
e que
O comboio para Santa
Apolónia parte daqui a cinco minutos, um relógio sofria, não dormia, e corria
A cada segundo de
silêncio, que às vezes a espingarda do soldado lançava contra o muro, e também
sabíamos que do outro lado do mar,
Os mabecos estavam
felizes, tão
Que um dia o rapaz que se
dizia filho do soba, que de nada lhe sobreva e acreditava, que a charrua pertencia
à terra lavrada, que quando sentia a janela entreaberta,
Pulava o muro, e depois
Sentava-se junto ao rio,
em pouca despedida.
Do céu recebíamos as
moedas e conchinhas e marés de inverno, nas mãos calcinadas pelo frio gélido de
uma certa madrugada, o assalto ao castelo, a ferrugem que nos olhava das vigas
em aço, que no braço, de aço quase nenhum, como nós o éramos,
Quase anda, dentro de uma
carruagem de gente, com gente tanta, que
Os soldados daí para cá
passaram a ser gente, e então
A gente saía todas as
noites, e todas as noites, a cada meia-luz, e a cada meia-noite, a carruagem
percorria cada rua e ruela e calçada e ribeiro e ribeira e o rio, que brincavam
junto ao Tejo, depois do outro lado do mar.
Um barco regressava das
colónias, coitado
Tão cansado que ele estava,
que já em casa, apenas um banho e um copo de leite e uma torrada e a leitura de
um poema, o separavam da noite e de uma cama deitada, sobre um soalho ondulante,
que às vezes era salgado, que às vezes
Pertencia ao destino.
O meu pai palmilhava cada
lágrima do musseque, e com um pequeno cordel passeava uma camionete e eu passeava
um triciclo sob o olhar atento das mangueiras e de uma parvalhão de um boneco e
que quando chovia,
O barco acordava,
atravessava o Tejo, e
Do outro lado do rio,
numa outra cidade, numa outra rua, sem saída, às vezes
E a areia era tão fina e
tão branca, e tão
Uma voz rouca emergia do
fundo de todo aquele oceano de luz, e então ouvíamos, nós os soldados, e a
restante gente, daquela louca carruagem,
Santa Apolónia.
Uma outra voz, essa no
interior da carruagem,
Estamos fodidos;
chegamos.
Alijó, 07/04/2026 – 03:32