22 julho 2026

Ser cigarro

Pergunto ao cigarro ser

O porquê de ter

A alcunha de cigarro assassino

Que este cigarro me quer e que me ama no seu amar destino

Este cigarro a arder

Sofrer este cigarro

O porquê de o ser

 

Ser cigarro o ter

Poisado no invisível cinzeiro

Na brilhante pedra lapidada

E o cigarro no seu esconder

Procura no cortinado

Uma porta

Uma janela

Ou outro cigarro sem o ser

 

Ser cigarro a arder

Ter

O ler

No cigarro que não quer ser

Ser um pobre cigarro a arder

Pergunto ao cigarro ser

A raiz a arder

De três cigarros

Que não sabiam

Que dois cigarros a arder

São o porquê de o ser

Ser cigarro a morrer.

 

22/07
23:10

Minha doce, carcera seara em silêncio

Minha doce, carcera seara em silêncio

O oiro doiro dançando sobre a barcaça, desalmada

Sobe o monte, a roupa esfarrapada

Lança pedras desenhadas, esconde na algibeira

As semente, rejeitadas

 

Despe as calças, ensanguentadas

Vinga-se no primeiro sorriso de luz, e quebra uma janela

Procura na gaveta, o revolver em formato de caneta

Escolhe entre os papeis, a melhor e a mais capaz, bala de cartão

Carrega o revolver, utilizando apenas o olhar da mão

O revolver poema, o revolver sermão

Depois desenha no peito a cruz negra da saudade, fuma o último cigarro

Encosta o aparo da caneta, à têmpora direita

Com o dedo esquecido do cigarro gatilho

Puxa-o

E do outro lado do rio, escuta-a

Ainda estou aqui.

 

22/07
22:51

O teu silêncio em flor

Tão tarde nos meus lábios teus lábios, a saliva noite

Vencendo a gravidade da ausência, no sentir

Te, eu o ser

A árvore amoreira na janela de um olhar, tão frágil o sentido

O tocar, o sabor do veneno, a viagem

Ao centro da terra

 

Tão tarde nos meus lábios teus lábios, o fogo que gela

A mão do primeiro arvorecer, talvez seja apenas

Uma vírgula, talvez seja só

Só um poema em nome do meu escrever, na aldeia

À lareia, e também ela, perdida

 

Tão tarde nos meus lábios teus lábios, a saliva noite

Vencendo a gravidade da ausência, o grito, o escrito

Centeio na terra lavrada, na sanzala de uma andorinha, e o balançar

Do capim, golpeando as ardósias e as árvores, e as canções

No outro destino, eu o sentir

Te, em cada sombra da luz virgem da lua

 

Tão tarde nos meus lábios teus lábios, meu amor

O desejar, não o ter, nem o sentir

O mar e as lágrimas de um barco, um miúdo sobe os degraus

Desenhados pela noite, dimensionados por um louco poeta, capaz

Cansado de estar, sentado

De o ser

Tão tarde, meu amor, nos meus lábios teus lábios

 

O teu silêncio em flor nos teus lábios a tarde tão, tão tarde, meu amor, nos meus lábios teus lábios em dor.

 

 

22/07
21:30

Há quanto tempo Eu não sentia o rosto de uma espada

Há quanto tempo

Eu não sentia o rosto de uma espada

Na lâmina da minha mão,

 

São as pedras que me afligem

São as pedras silêncios

Janelas encostadas

São as pedras

Madrugadas

Sangrando a saliva seiva de um sonho,

 

E também cansadas estão as pedras

Da calçada noite descendo o rio

Sentir, ir

São as pedras estrelas em bruta alegria

Sentir, eu sentia

As pedras nas lágrimas vertidas

São as pedras as palavras e as algemas do anoitecer

São as pedras o húmus de um poema por escrever,

 

Há quanto tempo

Eu não sentia o rosto de uma espada

Na lâmina da minha mão,

 

São as pedras o olhar na sombra

De uma pomba

São as pedras, o esperma e a canção

E gentes de pouca gente, em pedra e de pedra

São as pedras as insígnias de uma ausência

São as pedras esperança, demência

Na pressa, na espera

São as pedras a doença

São as pedras as crianças, são as pedras

A semente que sente, recordações e lembranças,

 

Parte 2:

 

Depois do pequeno-almoço, do café e do cigarro, e de alimentar os peixes e antes do banho,

 

São as pedras as lágrimas de uma mãe

Quando perde um filho

Para as garras de outras pedras,

São as pedras também poesias

Rochedos e lamparinas, são as pedras o centeio

E

O pão, às vezes quase pedra, outras que nem pedra-pão

São as pedras o silêncio de um coração

São as pedras a dor e a solidão, entre as pedras

Lançadas pela mão,

 

Há quanto tempo

Eu não sentia o rosto de uma espada

Na lâmina da minha mão.

 

22/07
06:44

A paixão

Pensaste que eu morri? As minhas palavras nunca morrerão enquanto tu as leres,

A paixão 

O abraço é a ausência do corpo, sinto-o
Não o teu abraço,
Mas o nu teu corpo deitado sobre a paixão do meu sexo 
E a luz é vento quente na boca do inferno,

A paixão sente, morre na tarde 
E
Acorda do ontem sonolento 
Sou apenas um pássaro 
Que só consegue voar 
Quando a noite é escuridão,

Quando a noite é o sonhar 
Na mão semeando 
Palavras, silêncios em mil palavras 
Estrelas milhões, pontos de luz
Envergonhados, e sós como eu
Sem tempo e nem vento 
No assento amar,
E a paixão é quase uma mágoa na alvorada tela de uma fotografia.

22/07
00:49

19 julho 2026

Fotografia

Era só uma fotografia 

Na tarde paixão do mar 

Quando o fogo é quase uma mão 

Na despedida flor 

 

E o vento no seu acordar 

Trazendo a escuridão 

E a semeando 

Na sonâmbula madrugada 

 

Era só uma fotografia 

Escondida no silêncio dos olhos 

Que o livro escreve no beijo 

Quando a noite é quase uma mágoa.

 

19/07

18: 19

O silêncio da escuridão

Sinto-me embriagado

Pelo silêncio da escuridão

Como se fosse o meu limite a eternidade;

Porque se tem medo ao escuro…! E a falta de luz é a saudade,

Não de alguém, mas de não ter tempo para ficar cansado.

Tenho tempo para me apaixonar,

Mas desconheço como conquistar um coração.

 

Resolvo equações complexas, mas tenho medo de caminhar,

E tudo parece tão simples, e tudo parece tão distante.

 

Sinto-me embriagado

Pela madrugada quando acorda com medo de acordar,

Mas sei que ela acorda e vai ao encontro do amanhecer.

Nunca tive medo de morrer

Mas tenho medo de acordar apaixonado,

Ficar sem nexo, estupidamente refém do meu pensamento

Como se fosse o mar.

 

Resolvo equações complexas, mas tenho medo do vento,

E tudo parece tão simples, e tudo parece tão distante.