Há quanto tempo
Eu não sentia o rosto de
uma espada
Na lâmina da minha mão,
São as pedras que me
afligem
São as pedras silêncios
Janelas encostadas
São as pedras
Madrugadas
Sangrando a saliva seiva
de um sonho,
E também cansadas estão
as pedras
Da calçada noite descendo
o rio
Sentir, ir
São as pedras estrelas em
bruta alegria
Sentir, eu sentia
As pedras nas lágrimas
vertidas
São as pedras as palavras
e as algemas do anoitecer
São as pedras o húmus de
um poema por escrever,
Há quanto tempo
Eu não sentia o rosto de
uma espada
Na lâmina da minha mão,
São as pedras o olhar na
sombra
De uma pomba
São as pedras, o esperma
e a canção
E gentes de pouca gente,
em pedra e de pedra
São as pedras as
insígnias de uma ausência
São as pedras esperança,
demência
Na pressa, na espera
São as pedras a doença
São as pedras as
crianças, são as pedras
A semente que sente,
recordações e lembranças,
Parte 2:
Depois do pequeno-almoço,
do café e do cigarro, e de alimentar os peixes e antes do banho,
São as pedras as lágrimas
de uma mãe
Quando perde um filho
Para as garras de outras
pedras,
São as pedras também poesias
Rochedos e lamparinas,
são as pedras o centeio
E
O pão, às vezes quase
pedra, outras que nem pedra-pão
São as pedras o silêncio
de um coração
São as pedras a dor e a solidão,
entre as pedras
Lançadas pela mão,
Há quanto tempo
Eu não sentia o rosto de
uma espada
Na lâmina da minha mão.
22/07
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