30 março 2026

vamos falar de loucura?

vamos falar de loucura?

loucura é ir à casa de banho pela madrugada para a higiene diária, e durante a noite

um louco, em vez de defecar na sanita, defecou no lavatório

 

e eu? cruzei os braços

 

loucura?

loucura é estar a almoçar ou a jantar, e de vez em quando, ou era um prato que levantava voo, ou um garfo ou uma faca

contra a parede

 

e eu? eu sempre com um olho no mário cigano e com o outro,

no burro

 

loucura?

loucura era o ferro às três da manhã aos gritos pelo meu quarto adentro

- luís a puta está lá fora para me visitar,

eu,

foda-se ó ferro, deixa-me dormir

estando eu, completamente drunfado do capacete

 

vamos falar de loucura?

 

não, porque serei sempre o tolo, o louco

- o luís é maluco

 

loucura,

loucura é um tipo apaixonar-se por uma trapezista de circo ambulante, do mais pobre que podia existir

e no entanto,

- vamos, vem comigo e conheceremos o país de lés-a-lés

um cão latia, um papagaio

- foda-se,

- não vás pá, não vás pá

e eu, que sou e era louco e que sempre fui louco,

não, não fui

 

loucura…

vamos falar de loucura?

loucura, loucura é um louco escachar um rádio-a-pilhas na cabeça de um outro louco, porque o primeiro louco pensava que o segundo louco me tinha magoado, enquanto eu me deliciava com o soro milagroso, que me cansava as veias, mais que aos poucos (vi poucas manifestações de amizade em toda a minha vida, como esta)

 

eu voava sobre o prado semeado de papeis coloridos, algumas bugigangas trouxemos, mas muito pouco para o frio que se fazia sentir, por aqui, algures

fora do oceano

sem barcos no meu colo.

 

Alijó, 30/03/2026 – 21:58

29 março 2026

Foi o fogo do teu olhar que me roubou a luz do mar

Foi o fogo do teu olhar que me roubou a luz do mar, não era só uma pétala de tinta na parede do teu desejo, e sinto
Na alvorada manhã o cansaço que me vai levar para outro lugar,
Outro mar,
Aos poucos os minutos dissolvem-se na esquina do meu sol, e vejo finalmente a água do clitóris amar

Balouçando sobre a folha de sombra que alguém esqueceu da noite anterior,
O meu corpo é quase gelo quando dorme no silêncio dos teus seios, mas,
O sorriso da tempestade quer ser também o fogo, não
Não sei como se chama a tua voz, meu amor

Que nome dar à tua voz, se quase não oiço a tua voz, o fogo
Do teu olhar, maré do meu destino, diziam que era só uma mão na boca do mundo,
Este inverno de amar,
Amar o mar.

29/03/2026, 21:20

o corrupio destino de uma almofada, de um candeeiro, nu, despido e estupidamente, despedido

o corrupio destino de uma almofada, de um candeeiro, nu, despido e estupidamente, despedido

a cânfora cidade, portuária, na tranquila luz

no cimo da montanha, cada barco que lá chega

traz nuvens, alguns afazeres pela manhã

e fatias de pão de ló

 

que bom que ele é, o comandante deste navio

dentro deste corrupio, destino de ser almofada

faminta, artesã nos afazeres e na morte

o profundo abismo em ser uma cama de lírios

e de saber que lá fora, ainda não é dia

 

talvez daqui a pouco o seja, e eu

já cá não me encontre e encontre, o navio, a almofada, a cama

sitiada sobre o soalho de verniz, quando na ardósia da noite

uma aldeia, longe daqui

se ergue das cinzas de um olhar e que me diz; são horas de acordar, luiz.

 

29/03/2026, 06:15

28 março 2026

é simples, o mecanismo complexo que habita a aldeia

é simples, o mecanismo complexo que habita

a aldeia, tão simples como a areia veia

que voa, que levita

como se fosse uma gaivota, que grita, e semeia

a primavera na mão do varejão

são as árvores em aço, de simples traquejo

que só existem dentro de um coração

que às vezes, é cego, é vesgo e não o vejo

e deste mecanismo complexo, os parêntesis rectos

que dentro de um círculo até parecem palavras

e ângulos a seus netos

dos catetos, quando pitágoras se deitou sobre o triângulo rectângulo

havia uma cilada, disfarçada

de janela safada, ou quem sabe era um losango

na algibeira do regedor da aldeia, e ainda ontem seria

a teia, a tinha, ou a alvorada

na esperança de uma cortina voar, e ser sempre dia.

 

Alijó, 28/03/2026, 22:18

imbondeiro

nunca tinha sono, o menino

não sentia, a fome, aquele menino

não chorava, o menino

tinha medo do mar, aquele menino

 

havia bandeiras, e espadas

e espingardas e bebedeiras

e o menino, desenhava na terra

o fumo, e a saudade das mangueiras

 

nunca tinha sono, o menino

porque o menino era um imbondeiro

e um imbondeiro nunca tem sono, e perdeu o medo

do mar, que hoje é o lençol do menino

 

Alijó, 28/03/2026, 05:23

27 março 2026

a razão,

a verdade, o sabor do vento

quando a saudade é um pedacinho de luz, imensa, distante

do último grito da madrugada, apagam-se todas as luzes da noite, acorda alguém, que espera os baraços de outro alguém…

e o dia é apenas um rio descendo a montanha

 

27/01/2026, 08:27

26 março 2026

Aprendi a voar cedo, cerrava os olhos, fincava os pezinhos no torrão de fogo, que há pouco era lama, e

Aprendi a voar cedo, cerrava os olhos, fincava os pezinhos nos torrões de fogo, que há pouco eram lama, e

Braços da minha mãe, ela

Abraçava-me sempre como se fosse o último abraço, e no entanto

Eu cerrava os olhinhos, e

Colo da minha mãe

Em criança acreditava que era louco, podia lá ser

Cerrava os olhinhos, e

Novamente braços da minha mãe

 

Os meninos que brincavam comigo,

Oh, pode lá ser

E ainda hoje, cerro os olhinhos, finco os pezinhos no chão térreo do meu destino,

E

Colo da minha mãe,

Sinto-lhe a mão, tão trémula, tão cansada

Que hoje faria setenta e nove anos, e sinto o seu toque, e o seu olhar

E os meninos que brincam comigo, oh, pode lá ser,

 

E isto, é

Cerro os olhinhos, finco os pezinhos ao chão térreo da página de um livro, e

Estou no colo da minha mãe

E oiço os meninos que brincavam comigo, louco

Louco,

E tolo,

E sempre que chovia

Uma pequena sílaba, abria a janela, e ele, voava sobre sob uma geada de estrelas.

 

Alijó, 26/03/2026, 21:33