vamos falar de loucura?
loucura é ir à casa de
banho pela madrugada para a higiene diária, e durante a noite
um louco, em vez de
defecar na sanita, defecou no lavatório
e eu? cruzei os braços
loucura?
loucura é estar a almoçar
ou a jantar, e de vez em quando, ou era um prato que levantava voo, ou um garfo
ou uma faca
contra a parede
e eu? eu sempre com um
olho no mário cigano e com o outro,
no burro
loucura?
loucura era o ferro às
três da manhã aos gritos pelo meu quarto adentro
- luís a puta está lá
fora para me visitar,
eu,
foda-se ó ferro, deixa-me
dormir
estando eu, completamente
drunfado do capacete
vamos falar de loucura?
não, porque serei sempre
o tolo, o louco
- o luís é maluco
loucura,
loucura é um tipo
apaixonar-se por uma trapezista de circo ambulante, do mais pobre que podia
existir
e no entanto,
- vamos, vem comigo e
conheceremos o país de lés-a-lés
um cão latia, um papagaio
- foda-se,
- não vás pá, não vás pá
e eu, que sou e era louco
e que sempre fui louco,
não, não fui
loucura…
vamos falar de loucura?
loucura, loucura é um
louco escachar um rádio-a-pilhas na cabeça de um outro louco, porque o primeiro
louco pensava que o segundo louco me tinha magoado, enquanto eu me deliciava
com o soro milagroso, que me cansava as veias, mais que aos poucos (vi poucas
manifestações de amizade em toda a minha vida, como esta)
eu voava sobre o prado
semeado de papeis coloridos, algumas bugigangas trouxemos, mas muito pouco para
o frio que se fazia sentir, por aqui, algures
fora do oceano
sem barcos no meu colo.
Alijó, 30/03/2026 – 21:58