À noite que voou
Na página noite da morte
À noite que voou
Sobre a folha da chuva
E dança sob a luz do mar
E dança sob a luz do mar
A noite que sonhou
Com a voz do meu acordar
13/06
22:39
À noite que voou
Na página noite da morte
À noite que voou
Sobre a folha da chuva
E dança sob a luz do mar
E dança sob a luz do mar
A noite que sonhou
Com a voz do meu acordar
13/06
22:39
O mar é quase uma mágoa na alvorada tela de uma fotografia
Traz com ele a luz e o miserável que sobrou de mim
E mesmo assim
O oceano é um cubo de vidro na tarde quase uma mão
Quase a espuma de um relógio
Ausente do mar
Longe está o fogo
E o vento que aos poucos morre
O mar
O mar é quase uma mágoa na alvorada tela de uma fotografia
E tudo à minha volta é a melodia do clitóris
Quando o mar é também a mentira de um olhar
13/06
15:58
Aos teus olhos eu lhes
pergunto quantas são as estrelas do teu silêncio
Aos teus olhos eu lhes
escrevo versos
Que as sílabas do
amanhecer semeiam neles
Porque os teus olhos são
o mar
E também são a primavera
de um triste olhar
Aos teus olhos eu lhes
pergunto o nome
Mas dizem-me eles que
nunca tiveram um nome
Eu os apelidava de olhos
de fome
Na fome dos meus versos
Nos teus olhos as flores sonham
com o jardim do desejo
Se um dia os teus olhos
quiserem eu lhes dou o beijo
E do beijo nascerá um
novo luar
13/06
13:58
Às vezes parece que nada
dá certo, no entanto
Ninguém sabe ao certo, o que
é o certo
E o que é o errado
Às vezes multiplicado por
muitas vezes, obtemos pequenas vezes, dissipando tormentos
Trazendo na mão, ruídos e
ventos
E mesmo assim, está
certo, está errado
A vaquinha come a erva,
no entanto
Ninguém sabe ao certo,
nem o nome da vaquinha
E tão pouco o silêncio do
pastor
E mesmo assim, o certo
E o errado, são apenas
sombreados da noite
O pastor sentado
Ao som do saboreado
manjar da vaquinha, a fresca erva da manhã
Ele lê poesia, e pincela
o horizonte com coloridas nuvens…
E é certo que amanhã é
domingo, e que é errado
O pastor ler poesia,
porque dizem, lá está
Não sabendo eu se é certo
ou se é errado, dizem
Que ler poesia tira o
tesão, e mesmo assim, é certinho
Que amanhã o pastor,
descobre que a vaquinha já comeu toda a ervinha, coitado do poeta
Que escreve para
pastores, que lêem poesia
Enquanto a vaquinha,
Come toda a erva
Que está, errado
13/06
02:07
(algures em Carvalhais,
eu, a vaquinha do tio Serafim que dava pelo nome de “amarela” e o infinito
silêncio do milho dançando na espuma da noite)
A noite meu amor, o que me pode ela trazer
A não ser insónia, sonhar-te dentro deste silêncio quase morte
Quase destino
Não o ser, sendo
A noite meu amor, é apenas a sombra do mar
Na alvorada manhã em fogo
Que arde na boca do inferno
Na esquina do amar-te
Amar-te na flor do dia, entre as palavras
E as estrelas que o livro semeia na minha mão
Ao longe oiço o pôr-do-sol sorrir
E o pincelar da chuva é quase gelo dentro de mim
12/06
22:58
Aqui vamos nós em
direcção ao pôr-do-sol, sitiados, estamos nós os alardos
Que antes de serem
soldados, foram drogados
E foram fodidos pela
escuridão da noite
Vestiam-se de gaiatos
porque gaiatos o eram, tal como a calçada
Descalça, cansada
Às vezes ouvia-se o tiro
de uma espingarda, talvez um soldado acabadinho de dar um tiro na cornadura, e
zás
O açúcar brincava sobre a
toalha, os miolos liam qualquer coisa de pouca coisa que existia naquela tarde
de frio, o calor
O suor, o frio, o corpo
rangia
O poema crescia, o tesão
era cada vez mais, até que
Zás
E,
E o que dizer da madame
da lavandaria que às vezes o sangrento fodia, e ela gemia, e ela
E zás
Capaz de engolir todo o açúcar
da mesa agora desesperada, a navalha
A navalha em brincadeira
com uma pequena côdea de pão, e ão
Descia o tesão ao
rés-do-chão, e fazia-se dia
Dia
O cacilheiro, vaiado,
também como a madame, gemia, ai que ele gemia
E se energia sobre as
amoradas da sorte, o guarda-chuva azul, contorcia-se
Sentia também o frio da
tarde, quase verão que o era, e no entanto
Nasci em Janeiro, em pleno
verão
Coisa louca, coisa louca,
Nascer em Janeiro a um
domingo e com a temperatura a mais de trinta graus celsius, porque se fosse fahrenheit,
Bom,
Esquecemos
Esquecemos tudo.
Sinceramente, que se foda
isto tudo. É o que é.
Uma jangada de pedra,
razão tinha-a ele.
Ele.
11/06
21:48
Às voltas com a roda anda
A roda, que às vezes é
dentada
Que outras tantas vezes,
não é nada
Que cada parafuso
apertado
É alegria no convento
Que cada flor envenenada
É a metáfora da primeira
lágrima
Às voltas no rosto da
gruta
À roda com a roda
Há chuva na eira
Há
Às voltas com a roda
A roda que nem sempre
roda
Que cada lágrima chorada
É uma luz apagada
É
São
Meia-dúzia de laranjas
Meia-grande com cerejas
Gosto de laranjas
E odeio cerejas
E rodas dentadas
À roda com a roda
A roda, que às vezes roda
Que outras tantas vezes
não quer rodar
A roda
E um dia a roda vai parar
11/06
01:19