22 março 2026

desenho de francisco fontinha

 

Aqui, às vezes me escondo

Partilhando tristezas, alegrias

 

Com as páginas de um livro, no mais puro silêncio

são mil os soldados que me querem matar

são mil os soldados que me querem matar

porque eu nunca serei uma gotinha de sangue, na lágrima de alguém

e outros muitos mais, virão, e

depois dizem que sou louco, porque desejo voar

ou

 

são mil os soldados que me querem matar

porque gosto da chuva, porque gosto das flores

e das faúlhas de um sorriso, porque

porque mil soldados, armados

me querem matar

 

e em cada rua, e em cada esquina

de luz, ou de um cigarro que flutua

na algibeira do sono, um punhado de pedras, uma qualquer saliência

no peito, um desejo de ir

e de não levar comigo identidade, ou até

 

o sitio de onde vim, ou até no sítio para onde vou

não preciso de relógio, preciso de comer, mas já como tão pouco

que,

havia um sino na toca da raposa, havia uma sombra no leito do lobo

e do sítio de onde vim, apenas uma fotografia

 

aquela imagem do ombro a tocar no arame farpado da vida, em círculos, e em muito pequeninos pontos de luz, sem regresso

tão tristes os mil soldados, sobre as limalhas do vento, gente a sofrer,

que vivem, sem viver

porque também eles, vão morrer

às mãos dos mil soldados que me querem matar.

 

Alijó, 22/03/2026 - 05:58

21 março 2026

Quase que não tenho viver

Quase que não tenho viver, não sei como é o pincelar de uma fotografia

Não sei como é o amor da chuva quando a tarde se esconde no teu sexo

E na mão de Deus o fogo que eu apenas sentia quando a ausência era só uma pétala

No olhar da tua boca


Quase que não tenho viver, não

Ter, e sentir

A rua na esquina do mar, a rua de onde vou partir

E dizer, e escrever


Escre

Ver, o tempo no toque do meu sol, sem

Tempo, e frio

Como o vento da tua voz nos lábios de um rio.


21/03/2026, 21:18

Os nossos corpos são as palavras em puro desejar

Os nossos corpos são as palavras em puro desejar 

São gotículas de tinta na tarde quase nos teus seios chover 

E deles sinto o acordar 

Da primavera que leva de ti todo o teu sofrer 


Os nossos corpos são as palavras em puro desejar 

Nas páginas de um livro em feitiço poesia 

Quando o mar

É o começo de um novo dia 


Os nossos corpos, meu amor, são as palavras em puro desejar 

Que a fogueira não se cansa de escrever 

São os nossos corpos um apenas sonhar 

Numa cama a arder...


21/03/2026, 20:27



local de trabalho

 

porque te escondes, meu amor

porque te escondes, meu amor

se apenas sou um miserável, e faminto

e tudo o que te escrevo, é a verdade, porque eu não minto

como também não mentem, as pétalas de uma flor

 

porque te escondes, porque te vestes de vento

e quase sempre, voas sobre o meu silenciar

se eu apenas quero te tocar

e viver, e amar no teu pensamento

 

porque te escondes, meu amor

sabendo que o rio não se cansa de me esperar

e quando lá chegar, e quando lá me sentar e sem dor

 

pegar na tua mão, como que se ela fosse uma lágrima de alegria

ou uma criança junto ao mar

porque hoje, meu amor, hoje é o dia mundial da poesia.

 

Alijó, 21/03/2026 – 05:44

20 março 2026

água

água, o silêncio que habita na ardósia

que escreve sob a ponte o nome da chuva

e um guarda-chuva, preocupado

deitado, ou até sentado

 

quanto a mim, me vou

ir, partir deste inferno deserto que acorda e que morre

quando a espada se crava na terra

e a raiz do olhar

 

em lascas, finas como finas o ão

as poeiras da montanha, e o mar

mais azul, mais triste

porque a água é o silêncio que habita na ardósia.

 

Alijó, 20/03/2026