22 março 2026

são mil os soldados que me querem matar

são mil os soldados que me querem matar

porque eu nunca serei uma gotinha de sangue, na lágrima de alguém

e outros muitos mais, virão, e

depois dizem que sou louco, porque desejo voar

ou

 

são mil os soldados que me querem matar

porque gosto da chuva, porque gosto das flores

e das faúlhas de um sorriso, porque

porque mil soldados, armados

me querem matar

 

e em cada rua, e em cada esquina

de luz, ou de um cigarro que flutua

na algibeira do sono, um punhado de pedras, uma qualquer saliência

no peito, um desejo de ir

e de não levar comigo identidade, ou até

 

o sitio de onde vim, ou até no sítio para onde vou

não preciso de relógio, preciso de comer, mas já como tão pouco

que,

havia um sino na toca da raposa, havia uma sombra no leito do lobo

e do sítio de onde vim, apenas uma fotografia

 

aquela imagem do ombro a tocar no arame farpado da vida, em círculos, e em muito pequeninos pontos de luz, sem regresso

tão tristes os mil soldados, sobre as limalhas do vento, gente a sofrer,

que vivem, sem viver

porque também eles, vão morrer

às mãos dos mil soldados que me querem matar.

 

Alijó, 22/03/2026 - 05:58