Não há chuva no enlouquecer,
eu nos teus lábios
me esquecia,
da vida travestida de
ribeira
e no sangue de uma
espingarda,
caminhávamos sobre a
espuma cinzenta da
tarde quase gente
em belém, quase chuva os
teus seios
na vergonha da minha mão
um apito ao longe e ao
perto,
uma porta de acesso ao
deserto,
as pombas vestidas de
luar e com lantejoulas
nas pálpebras
e de estrelas, a chuva
vem, ao teu ventre, meu
amor, que em ti eu
enlouquecia.
Não há chuva no palheiro,
e a eira está infestada
de ervinhas, pequeninas,
ausentes de tanto há tempo, eu
sempre sem tempo, eu
sempre
dizendo, ao vento,
trazendo do ontem, a água
cansada
de uma lágrima, teu
corpo,
me encanta, teu corpo se
despede do meu corpo
entre mortos corpos,
e destinos e sombras, e
as espadas lançadas
contra
a vertigem de um olhar
são as flores de outros
jardins.
E se o vento não me trouxer
a vergonha do teu olhar, e se o lamento,
o cacilheiro sem nome,
rio transversal, o mar
salga a mão do homem,
na sofrida escrita, na
morada exacta,
uma carta, parte e vai e
não
regressa mais
e traz, a migalha de um
beijo.
Alguém que morra
e que me diga onde
onde mora a carta
escrita,
e me diga
também
onde se esconde
aquele sorriso de belém,
muitas são as páginas
sobre a mesa,
dentro do prato
o nome do rio
que aos teus seios
voltou,
voltar
deixar sobre a cama a
roupa
amarrotada, deixar dentro
mim
o triste amanhecer,
eu me sentar
à espera de te ver
porque não há chuva no
enlouquecer.
25/07
21:59