25 julho 2026

Não há chuva no enlouquecer

Não há chuva no enlouquecer, eu nos teus lábios

me esquecia,

da vida travestida de ribeira

e no sangue de uma espingarda,

caminhávamos sobre a espuma cinzenta da

tarde quase gente

em belém, quase chuva os teus seios

na vergonha da minha mão

um apito ao longe e ao perto,

uma porta de acesso ao deserto,

as pombas vestidas de

luar e com lantejoulas nas pálpebras

e de estrelas, a chuva

vem, ao teu ventre, meu

amor, que em ti eu enlouquecia.

 

Não há chuva no palheiro, e a eira está infestada

de ervinhas, pequeninas, ausentes de tanto há tempo, eu

sempre sem tempo, eu sempre

dizendo, ao vento,

trazendo do ontem, a água cansada

de uma lágrima, teu

corpo,

me encanta, teu corpo se

despede do meu corpo

entre mortos corpos,

e destinos e sombras, e

as espadas lançadas contra

a vertigem de um olhar

são as flores de outros jardins.

 

E se o vento não me trouxer a vergonha do teu olhar, e se o lamento,

o cacilheiro sem nome,

rio transversal, o mar

salga a mão do homem,

na sofrida escrita, na morada exacta,

uma carta, parte e vai e não

regressa mais

e traz, a migalha de um beijo.

 

Alguém que morra

e que me diga onde

onde mora a carta escrita,

e me diga

também

onde se esconde

aquele sorriso de belém,

muitas são as páginas sobre a mesa,

dentro do prato

o nome do rio

que aos teus seios voltou,

voltar

deixar sobre a cama a roupa

amarrotada, deixar dentro mim

o triste amanhecer,

eu me sentar

à espera de te ver

porque não há chuva no

enlouquecer.

 

25/07
21:59