e então, de que queres
falar
do tempo
do estado do mar
do desalento
que é sentir no rosto o
vento
frio da mão
e então, de que queres
falar
do sítio de onde se vê o
mar
dos barcos que nunca mais
foram ao mar
ou então, se queres falar
falar sobre a razão
inversa de uma sonolenta nódoa
sobre a sebenta
aberta
de que queres, falar
se queres falar sobre a
neve
na neve quente de um
sorriso
a lareira quase virgem
gelo
em ténues migalhas
também, sonolentas
e também inversas, da
inversa terceira madrugada
ao meu lado, sentada
a maré azul-cinzenta de
um cortinado abandonado, uma vidraça
tão cansada, tão cansada
como cansada, está
o silêncio da estrada
e eu aqui sentado, no
parapeito de uma sombra
em espera, eu espero
por um barco em papel,
que só aparece durante a noite
e que vem vestido
tão lindo, e que é tão
querido
e sofrido, de muito longínquo
mistério
e então, de que queres
falar
do tempo
do estado do mar
do desalento
que é sentir no rosto o
vento
frio da mão,
e não lhe poder tocar
e então, de que queres
falar...
23/01/2026, 22:22
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