23 janeiro 2026

o silêncio da estrada

e então, de que queres falar

do tempo

do estado do mar

do desalento

que é sentir no rosto o vento

frio da mão

 

e então, de que queres falar

do sítio de onde se vê o mar

dos barcos que nunca mais foram ao mar

ou então, se queres falar

falar sobre a razão inversa de uma sonolenta nódoa

sobre a sebenta

aberta

 

de que queres, falar

se queres falar sobre a neve

na neve quente de um sorriso

a lareira quase virgem gelo

em ténues migalhas

também, sonolentas

e também inversas, da inversa terceira madrugada

 

ao meu lado, sentada

a maré azul-cinzenta de um cortinado abandonado, uma vidraça

tão cansada, tão cansada

como cansada, está

o silêncio da estrada

 

e eu aqui sentado, no parapeito de uma sombra

em espera, eu espero

por um barco em papel, que só aparece durante a noite

e que vem vestido

tão lindo, e que é tão querido

e sofrido, de muito longínquo mistério

 

e então, de que queres falar

do tempo

do estado do mar

do desalento

que é sentir no rosto o vento

frio da mão,

 

e não lhe poder tocar

 

e então, de que queres falar...

 

23/01/2026, 22:22

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