Não sei, era tão estranho
o Artur, até quando me tocava com a sua mão invisível, quase espuma de um
desvaneio, e desenhava no som de uma águia em cio, os primeiros acordes da
manhã.
Eu gostava dele, amava-o,
mas é impossível amar o Artur, impossível,
Impossível esta vida de
ser e de ter e de estar, onde nunca estive, quando me sento em frente à
estante, poiso o olhar, aqui e ali, e lembro de quando li aquele ou aquele
outro livro, abro-o, às vezes, encontro notas, palavras escritas numa qualquer
mesa de café, e no entanto,
Sentava-me em frente ao
Tejo e o Tejo comia-me desde o dedo mindinho do pé até aos quase não cabelos
que transportava e que quando estava muito vento, colocava a mão na cabeça e
com um quase medo de perder o restante cabelo, aprisionava-o com um pequenino
fio de nylon. Depois sentava-me, puxava um cigarro da algibeira tão cansada da
poeirenta estrada, caminhar, subir, descer,
E ele quase dormia sobre
as lágrimas de um cacilheiro. No pequeno caderno que sempre o acompanhava,
abria-o, puxava de uma esferográfica quase tão cansada como a algibeira tão
cansada da poeirenta estrada, caminhar, subir, descer,
E sabes, meu amor, nunca
entendi porque o Artur era apaixonado por barcos,
Nunca percebi porque o
raio do meu irmão mais novo era tão ou mais estranho de que uma locomotiva a
vapor, que depois do sexo lhe lia um poema, olhava-a e sentia a claridade da
noite quase destino, quase calçada sobre rodas, depois sabia
Sabia que quando ele me
tocava, eu não sei por que razão, mas eu tremia, eu não dormia, eu sofria, e
quando lia o que ele me escrevia,
Eu sonhava-o,
És tão tolo Artur,
Tolo.
Ouviam-se as amarras dos
marinheiros miseráveis, que quando aportavam, entravam em cada luzinha
meia-adormecida, bebiam, fumavam, deixavam restos de esperma sobre a mesa da
cozinha, depois um gaiato rompia corredor adentro, gritava pela mãe, e esta,
Esta abraçava-o com todo
o carinho do universo, cada gemido fingido servia apenas para alimentar o vício
da heroína e o leite do menino,
Depois pegava numa nota
de mil e enrolava-a em forma de tubo, protegendo o seu interior com prata de
alumínio, o miúdo nunca percebeu porque todos aqueles marinheiros estavam
fundeados no quarto da mãe, no entanto, quando ia à janela, olhava ao longe o Tejo,
E via um soldado sentado
na tristeza da tarde, às vezes quase noite, às vezes, quase saudade de ser
noite, de ser sempre noite dentro dele.
Uma espingarda se
inventava na escuridão do penedo de luz que de ser tão estranho, o universo
Era tão estranho o Artur
O universo sabia, sabia
que um dia, todos aqueles marinheiros deixariam de ser gente, o gaiato
cresceria e quem sabe, também um dia, também soldado, que o cacilheiro que o
olhava quase sempre ao final da tarde, hoje é sucata
Quase sempre me
encontrava com ele nas águas-furtadas de uma caquéctica pensão, ele chegava
sempre em primeiro lugar, entregava os vinte e cinco euros enroladinhos à
senhora quase tão venha como a pensão, nada diziam, tão pouco se olhavam, subia
as escadas até ao céu, a escuridão era total, enquanto eu subia, contava os
degraus e quase sempre concluía que tanto os cobertores como os espelhos não
tinham as mínimas dimensões segundo o RGEU,
Quero lá saber do RGEU,
quero lá saber do meu irmão Artur, quero lá saber,
Três toques numa porta
que mais parecia os olhos de uma abelha, depois, depois a porta abria-se, e ele
à minha espera para me abraçar, tão forte, tão forte,
Ele despia-me, lentamente
como se eu fosse uma andorinha à procura da primavera, tocava-me, acariciava-me
os seios, beijava-os, eu sentia dentro de mim o fogo de mais uma tarde de
loucura enquanto pela janela entrava o som de crianças em brincadeiras de ruela
junto à catedral, ouvíamos o sino, sentia-o dentro de mim como se ele fosse a
primeira pedra lançada contra um crucifixo suspenso do gesso em fendas
madrugadas de uma alvorada, quase outra vez noite.
Ouvíamos a coruja e
ficávamos lá, de mão dada.
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