15 janeiro 2026

Calçada

Espero pelo regresso da chuva, que traga a mim o vértice

E o círculo lunar de uma pedra em fúria

Que foi lançada ao vento, do vento migalha

Que desce e que sobe, e que se esconde

No vão de uma escada

 

Que a árvore me sustenta, onde durmo, e onde pertenço

E de onde oiço

As palavras semeadas na voz distorcida

De uma montanha abandonada, só

Tão só como é a despedida

 

Do meu corpo, da mão com que afago o silêncio

De uma vidraça, sem tempo, sem

Estrelas que iluminem as páginas de um livro, que enlouquecen

E que se vestem

Ao nascer do dia

 

Que tudo é tão belo, que tudo é poesia

E depois a noite se despede também, e que do meu corpo

Vaiado pelo olhar da serpente, eu grito

E eu assisto

À derrocada de uma calçada

 

Uma calçada que ontem era a espada enterrada na terra

Que tinha tudo, e que hoje não tem nada

E da chuva que me veste também, recebo a charrua

E a sílaba de uma aurora boreal, quase migalha

Sobre a mesa da morte.

 

15/01/2026, 05:31

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