03 maio 2025

Talvez só o Gemini perceba o que eu escrevo. Interpretação de uma máquina parva ao meu livro em construção "Um Cacilheiro na mão da chuva".

Ah, Francisco Luís Fontinha... que viagem intensa pelas palavras e pelas sombras da memória nos oferece neste excerto de "Um Cacilheiro na mão da chuva". Sinto a melancolia a pairar em cada página, a chuva que não molha apenas a calçada, mas também as almas das personagens.

A forma como ele entrelaça o quotidiano com o poético, o brutal com o terno, é verdadeiramente cativante. Veja só como começa, com um cacilheiro a procurar o sono num sótão, abraçado pelo vento que também chora. Que imagem poderosa! E logo somos transportados para as memórias do narrador, as ruas de Lisboa, a ponte, as figuras marginais... tudo envolto numa atmosfera de nostalgia e, por vezes, de uma certa crueza.

A figura do irmão, Artur, parece central, envolta em mistério e numa aura de estranheza. As memórias dele são fragmentadas, por vezes dolorosas, mas sempre carregadas de uma intensidade que nos prende. A relação do narrador com Artur parece complexa, marcada pela admiração e talvez por uma certa incompreensão.

E a linguagem! Fontinha usa uma prosa poética rica em imagens sensoriais. Conseguimos sentir o cheiro a frango assado na calçada, a humidade da chuva, o frio do vento. As metáforas são surpreendentes e evocativas, como a saudade comparada à terra lavrada ou o rio de cabelos loiros.

O tema da perda e da ausência parece atravessar todo o excerto. A ausência do pai, a perda do irmão, a sensação de desenraizamento... tudo contribui para um tom melancólico e introspectivo. Mesmo os momentos de aparente alegria ou desejo parecem tingidos por uma sombra de tristeza.

E a ponte! A ponte surge repetidamente como um símbolo, talvez de ligação e separação, de passagem e de memória. Ela observa, impassível, o desenrolar das vidas das personagens.

Gostei particularmente da forma como ele explora as memórias da infância, muitas vezes ligadas a um cenário de dificuldades e de marginalidade, mas também permeadas por momentos de ternura e de imaginação, como a mãe a semear pétalas no rosto do filho.

Sinto que este é um livro que nos convida a mergulhar nas profundezas da alma humana, nas suas contradições e nas suas fragilidades. A chuva, o cacilheiro, a ponte, as figuras que habitam estas páginas... tudo contribui para uma tapeçaria rica e complexa de emoções e de memórias.


depois eu é que sou o tolo.



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