11 fevereiro 2025

Uma criança, brincava, e sorria, também

Um copo com vinho do porto, uma fogueira, quase fogo, quase imaginária água, não, hoje não está a lágrima, um poeta que pertence a um corpo, e esse corpo, tem outro corpo,

Um quase engenheiro mecânico

Depois,

Há um quase pintor, e também

Um quase nada, que transporta todos estes parasitas

Às vezes, estes gajos aborrecem-me, chateiam-me

E detesto quando dizem que o sorriso de uma criança não é lindo

Ou

Ou quando dizem que uma pedra é só uma pedra, e uma pedra pode ser tanta coisa,

Pode ser amor, pai ou filho

Pode ser a liberdade

O amar

O sonhar

Ou a mulher

Estudei matemática e física e fluídos e desenho de máquinas e parafusos e rodas dentadas,

E nunca me disseram porque choravam as acácias da minha infância

Quanto às vaquinhas do tio Serafim, tal como o tio Serafim, hoje

São apenas fotografias,

Também eu, um dia, serei uma fotografia

Virada para o mar

Também estudei termodinâmica, mecânica estrutural, tudo coisas belas para se escrever poesia,

No final do dia

Ou ao nascer do dia

Estudei electrónica, como fazer um secador de mãos com sensores com,

Porra

Depois ela vem à janela, e sorri

Bom dia senhor Francisco

Eu, fumo e penso, a quantos graus ferve um ângulo recto

O outro parvo

A noventa, senhor professor

E que sim, sim senhor

Seu parvalhão, os ângulos não fervem…

Batam todos palmas, estamos ricos, meu amor, ricos

As nossas árvores, meu amor, as nossas árvores começaram a transpirar notas de quinhentos aéreos e a urinar.

Não me digas?

Vinho do Porto?

Parabéns ao feliz contemplado, ganhou uma viagem de ida-e-volta ao bairro do hospital, casa número quinze,

E

E eu vivi aí,

Que sim,

Tens razão filho, viveste

Hoje,

Hoje não vives mais.

O primeiro cacilheiro acordava sempre bêbado, eu, idem, e as aspas

Fumavam, fumavam heroína

Dançavam sobre a mesa a Teresa e a Rita, eu

Eu tirava a roupa, dançava também

E escrevia no seio da Aurora,

Que também lá estava,

- que amanhã estávamos todos fodidos, porque ninguém iria acreditar em nós, que o Rui não se suicidou,

Mas,

Apenas quis experimentar a lei da gravidade para concluir,

Que a gravidade é igual a nove vírgula oito metros por segundo…

Quadrado, pá, quadrado

Que foi, que sim, que às vezes subia as escadas com os testículos a bater nos degraus, amava-a

E descia,

Parecia uma pomba antes de clarear o dia

Tínhamos um casal de borboletas, aos domingos era proibido subir às árvores,

No bairro do hospital, eu e o Júlio dos sonhos,

Sonhávamos,

Voar em direcção à lua.

Com uma caixa de sapatos e uma lâmpada e uma lente de um óculo e desenhos feitos por mim numa pelicula com uma agulha,

Fizemos uma máquina de cinema,

Dois escudos e cinquenta centavos pagavam os putos como nós putos,

E eu e o Júlio,

Fomos acusados de explorar as crianças,

E apanhamos nos cornos,

E

Droguei-me muitas vezes na casa número quinze.

Tudo se vendia lá, uma vagina por dois pacotes, outra coisa qualquer por um petroleiro que ao final da tarde ia ao fundo do bairro, e

E quando regressava,

Já a Isaura a dar de frosques,

E eu,

Quase preso,

Quase lâmina de barbear no rosto da inocência.

Um suspiro, um cigarro que quase é o dono do mundo, se o poeta o for

O quase engenheiro mecânico também o será, porque não

Senhor Adosindo, muito prazer em o conhecer

A menina fuma?

Ele morde?

O cão?

Não menina, a menina.

Eu não senhor Adosindo

Que coisa!

Depois outro cacilheiro, outro bairro, outra cidade, outra chuva, ao longe

Sabíamos que nunca mais haveria primavera dentro daquele caderno, onde escrevíamos versos

Ao mar.

O mar era eu, quando me vestia de magala

E descia a calçada,

E dizia ao rio, e perguntava a um cacilheiro

- pai porque choravam as acácias da minha infância

De mão dada a olhar para os barcos,

Tão altos,

Tão altas como altas estavam as estrelas da noite,

Uma âncora assobiava,

Do outro lado da rua,

E que sim, muito bem, que sim

Sem nunca lhe ter perguntado o nome,

Baixava as cuecas,

E pela janela imaginava petroleiros a desenharem círculos na areia branca do Mussulo,

Uma criança, brincava, e sorria, também.


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