Um copo com vinho do porto, uma fogueira, quase fogo, quase imaginária água, não, hoje não está a lágrima, um poeta que pertence a um corpo, e esse corpo, tem outro corpo,
Um quase engenheiro mecânico
Depois,
Há um quase pintor, e também
Um quase nada, que transporta todos estes parasitas
Às vezes, estes gajos aborrecem-me, chateiam-me
E detesto quando dizem que o sorriso de uma criança não é lindo
Ou
Ou quando dizem que uma pedra é só uma pedra, e uma pedra pode ser tanta coisa,
Pode ser amor, pai ou filho
Pode ser a liberdade
O amar
O sonhar
Ou a mulher
Estudei matemática e física e fluídos e desenho de máquinas e parafusos e rodas dentadas,
E nunca me disseram porque choravam as acácias da minha infância
Quanto às vaquinhas do tio Serafim, tal como o tio Serafim, hoje
São apenas fotografias,
Também eu, um dia, serei uma fotografia
Virada para o mar
Também estudei termodinâmica, mecânica estrutural, tudo coisas belas para se escrever poesia,
No final do dia
Ou ao nascer do dia
Estudei electrónica, como fazer um secador de mãos com sensores com,
Porra
Depois ela vem à janela, e sorri
Bom dia senhor Francisco
Eu, fumo e penso, a quantos graus ferve um ângulo recto
O outro parvo
A noventa, senhor professor
E que sim, sim senhor
Seu parvalhão, os ângulos não fervem…
Batam todos palmas, estamos ricos, meu amor, ricos
As nossas árvores, meu amor, as nossas árvores começaram a transpirar notas de quinhentos aéreos e a urinar.
Não me digas?
Vinho do Porto?
Parabéns ao feliz contemplado, ganhou uma viagem de ida-e-volta ao bairro do hospital, casa número quinze,
E
E eu vivi aí,
Que sim,
Tens razão filho, viveste
Hoje,
Hoje não vives mais.
O primeiro cacilheiro acordava sempre bêbado, eu, idem, e as aspas
Fumavam, fumavam heroína
Dançavam sobre a mesa a Teresa e a Rita, eu
Eu tirava a roupa, dançava também
E escrevia no seio da Aurora,
Que também lá estava,
- que amanhã estávamos todos fodidos, porque ninguém iria acreditar em nós, que o Rui não se suicidou,
Mas,
Apenas quis experimentar a lei da gravidade para concluir,
Que a gravidade é igual a nove vírgula oito metros por segundo…
Quadrado, pá, quadrado
Que foi, que sim, que às vezes subia as escadas com os testículos a bater nos degraus, amava-a
E descia,
Parecia uma pomba antes de clarear o dia
Tínhamos um casal de borboletas, aos domingos era proibido subir às árvores,
No bairro do hospital, eu e o Júlio dos sonhos,
Sonhávamos,
Voar em direcção à lua.
Com uma caixa de sapatos e uma lâmpada e uma lente de um óculo e desenhos feitos por mim numa pelicula com uma agulha,
Fizemos uma máquina de cinema,
Dois escudos e cinquenta centavos pagavam os putos como nós putos,
E eu e o Júlio,
Fomos acusados de explorar as crianças,
E apanhamos nos cornos,
E
Droguei-me muitas vezes na casa número quinze.
Tudo se vendia lá, uma vagina por dois pacotes, outra coisa qualquer por um petroleiro que ao final da tarde ia ao fundo do bairro, e
E quando regressava,
Já a Isaura a dar de frosques,
E eu,
Quase preso,
Quase lâmina de barbear no rosto da inocência.
Um suspiro, um cigarro que quase é o dono do mundo, se o poeta o for
O quase engenheiro mecânico também o será, porque não
Senhor Adosindo, muito prazer em o conhecer
A menina fuma?
Ele morde?
O cão?
Não menina, a menina.
Eu não senhor Adosindo
Que coisa!
Depois outro cacilheiro, outro bairro, outra cidade, outra chuva, ao longe
Sabíamos que nunca mais haveria primavera dentro daquele caderno, onde escrevíamos versos
Ao mar.
O mar era eu, quando me vestia de magala
E descia a calçada,
E dizia ao rio, e perguntava a um cacilheiro
- pai porque choravam as acácias da minha infância
De mão dada a olhar para os barcos,
Tão altos,
Tão altas como altas estavam as estrelas da noite,
Uma âncora assobiava,
Do outro lado da rua,
E que sim, muito bem, que sim
Sem nunca lhe ter perguntado o nome,
Baixava as cuecas,
E pela janela imaginava petroleiros a desenharem círculos na areia branca do Mussulo,
Uma criança, brincava, e sorria, também.
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