Vou à varanda. Tiro o maço de cigarros do bolso com muito cuidado, retiro um cigarro, olho-o como se ele fosse a mulher mais linda não sei de onde, acendo-o e penso
Penso que se eu não pensasse, talvez feliz.
Ao longe, do meu lado esquerdo, o latir de um cão. Talvez fome. Talvez sinta o silêncio de uma fêmea, talvez preveja o enforcamento de uma sombra.
Do meu lado direito, o som de uma coruja. Um som melódico, mas triste. Dizem que adivinha mortandade.
Tem morrido muita gente de cancro. Uma coisa horrível, a decadência do corpo, antes da morte. Estamos vivos sem um corpo, e às vezes
Ainda falta tanto para começar a caminhar.
O meu pai partiu sem corpo. Tudo era horrível, tudo era noite constante, e invisível. O rosto e a cabeça pareciam uma fonte sempre a jorrar sangue,
O peito disforme, com altos e baixos, mais parecendo uma montanha à procura de um filho, à procura de uma palavra, ou à procura de nada.
Eu fechava os olhos, e em vez de ver o mar
Apenas um rio de sangue correndo pelo chão.
A minha mãe também foi ficando sem corpo. E eu fingia sorrisos para que ela acreditasse
Que eu estava muito feliz.
Mas não estava.
E imaginava
O meu pai sentado numa cadeira emprestada, daquelas todas agronómicas e com comando integral e com internet
A morfina aos poucos inventava cadeiras nas esplanadas do silêncio.
Anos antes, era o meu pai a conversar com o filho, filho esse que não estava, filho esse que voava, filho esse que fumava. Mas o meu pai compreendia a minha pedrada.
Depois, era a minha vez de conversar com o meu pai, estando ele abraçado a umas quantas drageias de morfina. Cada vez mais o meu pai precisa de morfina, ontem era eu
Que cada vez mais,
Precisava de heroína.
Um dia enquanto regressava do trabalho, sem saber se era segunda-feira, terça-feira, quando às vezes passava a noite na urgência do IPO, eu trocava as coisas
E às vezes pensava,
Se atirasse o carro pela ribanceira,
Talvez,
Tudo terminava. Entro em casa.
Vou ver como ele estava, e ele
Filho, temos de conversar.
Pensei.
Vai pedir o divórcio à minha mãe, depois de todo o sofrimento que ela está a passar, ver o amor da sua vida a cair aos pedacinhos. E que não. Era mesmo comigo.
Então
Filho, isto tem de acabar.
E cá para mim, pois tem pai.
Tu tens de tomar providências porque já não sei se é dia
Ou se é noite.
E eu respondia-lhe
Tem razão pai,
A morfina também não.
E no entanto
Arrependo-me de não ter tomado algumas drageias com ele
E conversarmos.
A minha mãe também se desfez em pedaços como se fosse tiras de papel. Também horrível
Estarmos a almoçar ou a jantar,
E aquele maldito aparelho de oxigénio sobre a mesa, sempre em movimento
Sempre a emitir sons.
Durante a noite
Era o outro aparelho de oxigénio no corredor,
Que às vezes,
Parecia mais um compressor
Do que um aparelho de oxigénio.
Ainda hoje oiço este som. Cadente. Permitindo que eu aos poucos
Pareça,
Sei lá eu o que pareço.
Depois também a minha mãe à volta da morfina,
E concluo
Que sou um Ex drogado, filho de dois drogados.
E penso em ti, meu amor. Imagino os teus olhos
Dançarem na mão de uma lágrima de luz,
Imagino a tua boca, procurando a minha boca
Na escuridão de um desejo.
Imagino a tua mão poisada na minha mão, em troca
De nada,
Em troca de um abraço, quando uma nuvem acredita
Que nos lábios de uma criança
Um pássaro, um livro
Se ergue cuspindo sílabas contra a esquina de uma árvore,
Eu
Quase morto,
Quase que não estou, aos poucos
Em pedaços,
Quase que sinto, e quase que me mato.
E penso em ti. Tanto que penso. Tanto que sou
Mas quem sou, se ninguém percebe porque procuro
Os teus lábios para beijar.
Estou aqui, sentindo tudo isto
Estou aqui permitindo que o sono me traga uma drageia para dormir,
Ou uma mão,
Uma mão para te tocar.
Imagino o teu corpo, só
Poisado no meu peito.
Imagino o teu cabelo,
Também ele só
Poisado no meu peito…
Imagino o silêncio nos teus olhos, que dizes serem vesgos
E que são mais lindos,
De que os lindos olhos do mar.
Imagino,
Imagino a tua mão,
Poisada na minha mão,
Imagino a tua mão, entrelaçada na minha mão
A folhear
Um livro de poemas.
Imagino o sol acreditando na lucidez da tua luz,
Quando sei que amanhã estou morto,
E que amanhã
Deixarei de imaginar…
O mar.
Sem comentários:
Enviar um comentário