10 novembro 2024

Imagino a tua boca, procurando a minha boca Na escuridão de um desejo

Vou à varanda. Tiro o maço de cigarros do bolso com muito cuidado, retiro um cigarro, olho-o como se ele fosse a mulher mais linda não sei de onde, acendo-o e penso

Penso que se eu não pensasse, talvez feliz.

Ao longe, do meu lado esquerdo, o latir de um cão. Talvez fome. Talvez sinta o silêncio de uma fêmea, talvez preveja o enforcamento de uma sombra.

Do meu lado direito, o som de uma coruja. Um som melódico, mas triste. Dizem que adivinha mortandade. 

Tem morrido muita gente de cancro. Uma coisa horrível, a decadência do corpo, antes da morte. Estamos vivos sem um corpo, e às vezes

Ainda falta tanto para começar a caminhar.

O meu pai partiu sem corpo. Tudo era horrível, tudo era noite constante, e invisível. O rosto e a cabeça pareciam uma fonte sempre a jorrar sangue,

O peito disforme, com altos e baixos, mais parecendo uma montanha à procura de um filho, à procura de uma palavra, ou à procura de nada.

Eu fechava os olhos, e em vez de ver o mar

Apenas um rio de sangue correndo pelo chão. 

A minha mãe também foi ficando sem corpo. E eu fingia sorrisos para que ela acreditasse

Que eu estava muito feliz.

Mas não estava.

E imaginava

O meu pai sentado numa cadeira emprestada, daquelas todas agronómicas e com comando integral e com internet

A morfina aos poucos inventava cadeiras nas esplanadas do silêncio.

Anos antes, era o meu pai a conversar com o filho, filho esse que não estava, filho esse que voava, filho esse que fumava. Mas o meu pai compreendia a minha pedrada.

Depois, era a minha vez de conversar com o meu pai, estando ele abraçado a umas quantas drageias de morfina. Cada vez mais o meu pai precisa de morfina, ontem era eu

Que cada vez mais,

Precisava de heroína.

Um dia enquanto regressava do trabalho, sem saber se era segunda-feira, terça-feira, quando às vezes passava a noite na urgência do IPO, eu trocava as coisas

E às vezes pensava,

Se atirasse o carro pela ribanceira,

Talvez,

Tudo terminava. Entro em casa.

Vou ver como ele estava, e ele

Filho, temos de conversar.

Pensei.

Vai pedir o divórcio à minha mãe, depois de todo o sofrimento que ela está a passar, ver o amor da sua vida a cair aos pedacinhos. E que não. Era mesmo comigo.

Então

Filho, isto tem de acabar.

E cá para mim, pois tem pai.

Tu tens de tomar providências porque já não sei se é dia

Ou se é noite.

E eu respondia-lhe

Tem razão pai,

A morfina também não.

E no entanto

Arrependo-me de não ter tomado algumas drageias com ele

E conversarmos. 

A minha mãe também se desfez em pedaços como se fosse tiras de papel. Também horrível

Estarmos a almoçar ou a jantar,

E aquele maldito aparelho de oxigénio sobre a mesa, sempre em movimento

Sempre a emitir sons.

Durante a noite

Era o outro aparelho de oxigénio no corredor,

Que às vezes,

Parecia mais um compressor

Do que um aparelho de oxigénio.

Ainda hoje oiço este som. Cadente. Permitindo que eu aos poucos

Pareça,

Sei lá eu o que pareço.

Depois também a minha mãe à volta da morfina,

E concluo

Que sou um Ex drogado, filho de dois drogados.


E penso em ti, meu amor. Imagino os teus olhos

Dançarem na mão de uma lágrima de luz,

Imagino a tua boca, procurando a minha boca

Na escuridão de um desejo.

Imagino a tua mão poisada na minha mão, em troca

De nada,

Em troca de um abraço, quando uma nuvem acredita

Que nos lábios de uma criança

Um pássaro, um livro

Se ergue cuspindo sílabas contra a esquina de uma árvore,

Eu

Quase morto,

Quase que não estou, aos poucos

Em pedaços,

Quase que sinto, e quase que me mato.

E penso em ti. Tanto que penso. Tanto que sou

Mas quem sou, se ninguém percebe porque procuro

Os teus lábios para beijar.

Estou aqui, sentindo tudo isto

Estou aqui permitindo que o sono me traga uma drageia para dormir,

Ou uma mão,

Uma mão para te tocar.

Imagino o teu corpo, só

Poisado no meu peito.

Imagino o teu cabelo,

Também ele só

Poisado no meu peito…

Imagino o silêncio nos teus olhos, que dizes serem vesgos

E que são mais lindos,

De que os lindos olhos do mar.

Imagino,

Imagino a tua mão,

Poisada na minha mão,

Imagino a tua mão, entrelaçada na minha mão

A folhear

Um livro de poemas.

Imagino o sol acreditando na lucidez da tua luz,

Quando sei que amanhã estou morto,

E que amanhã

Deixarei de imaginar…

O mar.


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