16 novembro 2024

A solidão

(a solidão mede-se pelo estalar dos móveis, durante a noite…

António Lobo Antunes, in O Tamanho do Mundo)


Uma espingarda dispara uma bala contra a janela, lá fora, uma porta que procura uma entrada, um vidro em busca de uma qualquer saída, nem que seja uma bala disparada contra a cabeça do suicida, dorme meu amor, dorme

Espero-te dentro deste apeadeiro em sono, pego num livro, pego

Acaricio-o na ânsia que ele me abrace e me escute e fique em silêncio, simplesmente a olhar-me, mas nada mais do que isso

Hoje apetecia-me voar sobre os telhados sombreados que apenas o silêncio consegue descrever, a tua mão, pouco a pouco, parece um invisível fio de luz, canso-me de ti

E canso-me da luz. Tínhamos os nossos corpos, apenas, sós

Perdidos numa cama lamacenta, pelo tédio, pela saudade,

Pelo esperma,

Tínhamos dois corpos despidos, ausentes de tudo e de todos,

Os milagres da natureza. E tínhamos um espelho, um espelho que nos espiava.

Tínhamos uma janela de que em nada nos servia, apenas para que o aposento não cheirasse tanto a porcaria. Tínhamos um filho para criar, um filho para educar, tínhamos, sobre uma mesa apodrecida, um ramo de flores,

E tudo parecia tão belo,

E tudo,

Mas tudo mesmo, tínhamos na parede um crucifixo que nos espiava também, também éramos espiados pelo espelho,

Aumentavam os teus seios, os teus lábios mais carnudos

E vermelhos,

As tuas mãos mais doceis e macias, tínhamos 

Aumentavam também as tuas nádegas, tínhamos também pendurado no tecto uma coisa estranha, que de tudo o que parecia,

De candeeiro não seria, certamente

Mas iluminava o teu corpo nu, e eu imagina-te completamente nua, como estavas

Nos braços do homem que nos espiava da parede,

Vê lá meu amor; imaginava-te nua nos braços do Cristo ali esquecido, ali vencido, tendo como único passatempo,

Ao final do dia,

Contabilizar quantos corpos se fundiram naquela cama, quantas fogueiras desejando apenas o lume da voz, apenas uma única palavra, escrita no teu seio.

E ao final do dia Cristo entregava o relatório a uma senhora baixinha com óculos, que a sua única função era de apenas,

Receber vinte e cinco euros, com direito a uma toalha.

Às vezes eu saía de dentro de ti tão apressadamente que, só quando chegava à rua é que percebia,

Em vez de ter trazido o meu corpo, o teu corpo vestia. Depois eram as trocas, eu saía de dentro do teu corpo,

E tu,

Saías de dentro do meu corpo, e passávamos a ser novamente dois corpos

Abraçavas-me

- amo-te loucamente

Tínhamos os nossos pais, tínhamos as nossas fotografias, uma casa para arrumar, que quase sempre

Estava desarrumada. Que quase sempre, estava vazia.

- desenhavas no meu corpo o desejo pergaminho de uma tarde de Verão, e quando colocavas a tua mão sobre o meu seio meio envergonhado, sentia que do outro lado da rua alguém procurava pelas estrelas da noite anterior, um bêbado fazia-se à estrada, um candeeiro de rua, quase e quase

Apenas uma sombra junto ao rio. Quando percorrias todo o meu corpo como se ele fosse uma seara de vidro sobre a mesa do jantar, e eu tão feliz, e eu sentia-me tão desejada, tão amada.

E tínhamos.

Depois ninguém sabia onde me procurar, depois ninguém sabia onde me encontrar, depois vinha uma gaivota 

- depois as mentiras, depois os esconderijos, os silêncios, depois os cigarros deixaram de conversar, depois a janela que apenas servia

Para que aquele aposento não cheirasse a porcaria, sempre encerrada, sempre em lágrimas, sempre a pobre daquela janela

Depois uma bicicleta que subia as escadas, que depois descia as escadas, que depois corria tanto até se esquecer de ser dia, e vinha a noite

- abraçavas-me, beijavas-me tanto que eu acreditava 

Depois as árvores procurando os pássaros pelas ruas da cidade, um carro que passava,

Uma porta

Que quase sempre,

Se fechava.

Depois, depois tínhamos

- qualquer coisa estranha na mão que mais parecia uma espada, mas claro, nunca o poderei confirmar

Depois, depois

A solidão mede-se pelo estalar dos móveis, durante a noite, 

E é tão estranha, meu amor, é tão estranha a noite

A noite, são estranhas todas as estrelas, é estranho e confuso, o luar

E o mar.

E a cada estalar dos móveis sinto esta solidão inventada que apenas me serve para 

Talvez, para nada.


(ficção)


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