domingo, 13 de novembro de 2022

Janela entre dois corpos de luz

 Olhas-me

Olhas-me pendurado nesse eterno silêncio

Como se eu fosse uma janela virada para a noite

Sabendo nós

Que a noite é apenas um cortinado embrulhado na timidez da alvorada

 

Olhas-me

Enquanto do outro lado de mim

Uma lâmina de ossos atravessa-me o peito

E as palavras que te escrevo

Morrem quando se esconde o sol nos teus olhos de amêndoa

 

Mesmo assim

Olhas-me nesse imenso Oceano de escuridão

Olhas-me

E sentas-te nos meus olhos invisíveis

Que transportam a luz neste enorme acelerador de partículas

 

A que chamam vida

Olhas-me

E incendeia-me quando lanças sobre mim

As primeiras chuvas da manhã

Sem que percebas que choro

 

E olhas-me

Olhas-me

Enquanto estou suspenso nesse inanimado pedaço de parede

Quando podíamos ser um barco

Perdidos em alto-mar

 

 

 

 

Alijó, 13/11/2022

Francisco Luís Fontinha

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