segunda-feira, 11 de março de 2013

A garganta de vozes divinas

Lembras-te das oito casas que em círculo habitavam a montanha da luz vermelha? Sonhava conquistar-te as palavras que escrevias nos desejos dos telhados de colmo das oito casas, sonhava abraçar as casas, oito concretamente, mas tu nunca o deixaste, e no entanto, oito casas vezes quatro paredes cada, num total trinta e duas paredes, e
Para nada, absolutamente nada,
Nunca foram pintadas, nunca foram escritas, parecem cadernos abandonados na mochila de uma criança, ou, escondidas na pasta de couro, pesadíssima, com uma ardósia de vaidade e um ponteiro de insónia, as tuas, porque te sobejam as noites e faltam-te os dias, ou
Porque crescem-te as sílabas nos teus lábios em pétalas adormecidas, e como as rosas, gotinhas de águas descem da tua doce boca com persianas de vidro, e um dia acorda como se de um cortinado de xisto aparecessem as tão desejadas garras celestiais, e pobres cenários de seda bordados com linha fina e transparente sobre as mangas do destino cansado que uma personagem de arame vive quando a grande noite do reino, lá fora, uma lareira com grandes folhas de papel, arde, e lágrimas de fumo caem sobre as poucas ou nenhumas mãos humanas,
Tínhamos fugido todos, e todas partiram antes da anunciada chegada do grande mestre dos visíveis penhascos com carris e cancelas de madeira, um comboio de ferro galgava as paredes do sonho, e uma escada de pedra conduzia-nos até ao silêncio dos desenhos, que ele
Eu deixei ficar debaixo da cama sonolenta e triste do quarto da saudade, vivíamos cansados dos espelhos com sorriso de marfim, vivíamos cansados das caves de cartão com janelas de porcelana, e mesmo assim
Tínhamos fugido, e todas partiram antes da anunciada chegada do grande mestre dos visíveis penhascos com carris e cancelas de madeira, e nunca tínhamos experimentado o amor, a paixão dos corpos com migalhas de vento, e mesmo assim
Sentia-te sobre os oito telhados de colmo, e ouvia os pássaros dos teus seios de ramo em ramo, à procura das abelhas com asas de silício, e dizias-me que tudo tinha um final, umas vezes alegre, outras
Triste,
Mas tudo tem um final triste, não achas? Apenas por tratar-se do fim...
Claro que não, dizes tu, e tudo é reciclado, mas será o amor reciclado? E as palavras? Serão as palavras, também elas tal como os desenhos, coisas que podemos reciclar? E os cabelos? E a vida? O abismo? A morte? E Deus?
Triste,
Drageias de medo mergulhadas em cianeto, prata, verdes canções com olhos azuis, altos e magros, e finos, e novos, o comboio rasga a montanha em direcção ao abismo, e sentia-te
Sobre os telhados de colmo, voavas em pequenos quadrados, como os pássaros quadrangulares que a geometria atira contra as nuvens desertas, magras, fúteis, pássaros muito parvos, muito mais para o triangular do que quadrangular, e mesmo assim, a vida constante clama da paixão uma garganta de vozes divinas, drageias
Tristes,
Outras,
Às vezes, também, deixava ficar debaixo da cama sonolenta e triste do quarto da saudade, vivíamos cansados dos espelhos com sorriso de marfim, outras, nunca foram pintadas, nunca foram escritas, parecem cadernos abandonados na mochila de uma criança, ou, escondidas na pasta de couro, pesadíssima, com uma ardósia de vaidade e um ponteiro de insónia, as tuas, porque te sobejam as noites e faltam-te os dias, ou, tristes, e outras, dizias tu, alegres
Mas, não será tudo um fim? Independentemente de ser ou não ser alegre...
Como as plantas quando morrem, dizes-me que foram as plantas mais lindas que tiveste, e depois?
Estão mortas,
Tenho medo do mar, e das ondas de cristal, sinto-os como se eles vivessem dentro de mim, como se eles fizessem parte do meu pobre esqueleto, e sabes perfeitamente que não, e nunca o farão, e nunca o permitirei que ele e ela entrem em mim, mas sinto-os cá dentro, este triste paradoxo da vida construída com pedaços de papel, uns em branco, outros já escritos, e outros tão pequeninos
Que nem as labaredas da fogueira que arde junto às oito casas em círculo conseguem atravessar o limite definido pela destruição, as lágrimas, e o cansaço de amar sem ser amado, como os fantasmas com sorrisos de marfim, que os espelhos reflectem nas searas abandonadas,
Chovem tristes palavras sobre mim, chovem alegres degraus de inocência que o tempo alimentou quando das tempestades de tristeza, e todas as cancelas de madeira, um comboio de ferro galgava as paredes do sonho, e uma escada de pedra conduzia-nos até ao silêncio dos desenhos, que ela inventava sobre o clitóris da paixão,
Gemias os sons poéticos que o poema transpira, e o poema acaba de ser despedido pelo filho da mãe do poeta, morre, e a fome das palavras, simplesmente o comeu, como se comem todos os homens vestidos de poema, quando desce a noite à sinfonia do amor entre os parêntesis do texto, também ele, acabado de morrer e despedido...

(ficção não revisto)
@Francisco Luís Fontinha

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