segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Jardim fantasma

Deixei de ter tudo
Na gaguez das palavras
No sofrimento de um poema

Deixei de ter tudo
E hoje sou apenas uma sombra
Prisioneira na janela

E cessaram as manhãs
Que me visitavam
E traziam-me as palavras e as cores do oceano
Depois de a noite mergulhar no jardim fantasma
Na cidade imaginária
Deixei de ter tudo

E percebo que nunca tive nada.

59,4 x 84,1 (desenho de Luís Fontinha)

domingo, 11 de dezembro de 2011

Compartimento dos sonhos

Vagueio miseravelmente no compartimento dos sonhos
E das teias de aranha da infância
Em Luanda
Pego no mar
E pinto-o na minha mão
Antes de acordar

Vejo-me sentado na marginal
Agachado na sombra de um coqueiro
À espera que o mar me venha buscar
Que o mar pintado na minha mão
Sorria para mim
Sorria sem me acordar

Vagueio miseravelmente no compartimento dos sonhos
E das teias de aranha da infância
Em Luanda
Pego no mar…
E um papagaio de papel
Poisa sobre mim e sorri

Sorri sem me acordar.

84,1 x 59,4 (desenho de Luís Fontinha)
Aos poucos corri com os amigos da minha vida,
Hoje, hoje limito-me a ouvir os pássaros e a olhar as árvores e a recordar uma calçada frente ao rio,
Aos poucos fiquei pendurado entre o silêncio e a noite, aos poucos, aos poucos desapareceram os sonhos… e sentado na solidão pinto o mar de Luanda nas minhas mãos.