05 outubro 2026

A porta do mar

A porta do mar é uma casa sem pão que está arder na alvorada de um relógio de parede, cada quadrícula do meu caderno é uma janela no toque de uma fotografia que não tem a noite para lhe sorrir.

Somos só nós, tu e eu. 

Mas tu também sou eu dentro do outro eu, tantos mares que tive, que sobre eles, dormi e comi, na tangente inversa de uma lágrima cansada de voar.

Tantos jardins na esplanada do silêncio térreo da chuva que vai trazer a luz, depois, a porta terá mil estrelas de brincar, dos mil sóis de um olhar,

E me mostrar o que existe,

Depois,

Da porta do mar.


05/10

17:54

O viajante

Na viagem sente o viajante o cansaço e o peso da espuma que seduz a árvore ausente, e que arremessa contra o clitóris, a infernal distância que separa os teus seios, da outra metade da laranja.

 

Saberia eu se o sentido proibido de caminhar sobre as brasas clandestinas da noite, que o prazer se alicerça quase em ruínas, que de sucata se compõe, a rua do meu sorriso.

 

Saberá a laranja, a metade da laranja, a razão inversa de ser, a derivada quase perfeita, dos teus seios míseros, no vento, capazes de levitar todos os barcos, do oceano, cinzento, e escuro.

do meu viver.

 

Sou o viajante desta triste e longínqua, e sem fim, viagem, viver, não tendo medo de, mas o desejo, de

 

ser,

qualquer coisa,

seja ela, qual for,

de,

 

ter.

 

05/10
13:57

I DON'T WANT TO - TONI BRAXTON

Amanhecer

Já nada faz sentido

no sentir e no viver,

no sorrir e no escrever,

já quase que é silêncio

dentro do silêncio,

no amanhecer,

sempre na corrida sem tempo,

na distância entre um olhar,

e o vento.

Já quase nada faz sentido

no sentir

a vergonha de o ser,

sem o saber,

sentir a máquina de tricotar

na cabeça em

fatiadas migalhas de

alvorada,

quase, quase que ao nascer,

a flor se apaga a escuridão,

e

o meu corpo,

já quase nada sente,

neste pequeno,

sentir,

sentir que há

gente na praia

morrendo,

e sofrendo,

porque já nada faz sentido,

no ser,

e no,

vivendo.

 

05/10
11:34

Insónia

Pertence-me a insónia de estar,

ou louco,

ou pedindo ao invés amanhecer

que traga a chuva disfarçada de ser,

não o ter, e andando pelas caminhadas

ribeira abaixo, descendo

ao fundo do mais profundo,

silêncio.

Cada voz invisível,

é um sorriso na esperança, de

cantar sob o perfume da rosa,

que dentro do livro,

brinca,

e é,

amor.

 

05/10
06:13

Amar o fogo

Na mão de uma página de amar o fogo que deixei na alvorada de Deus, sentindo o teu corpo todo derretido na espuma cansada da minha solidão,

Eu o serei na vertigem ocular do mar quando o gélido sargaço da morte se alicerça às amuradas horas de mim,

E o teu corpo é o mel desejo que a circunferência mais secreta do mundo tem na cabeça quando,

Tudo,

Quando tudo é quase uma sílaba para o nada, 

Na página de amar o fogo,

Na mão.


05/10

04:37